No marco do 7º Congresso Latino-Americano e Caribenho de Culturas Vivas Comunitárias, uma jornada que entrelaça arte, pensamento e política para afirmar um horizonte comum na região.
Quando os povos se encontram, a esperança se torna prática. Nesta quarta-feira (21), Medellín reuniu arte, pensamento e política em uma jornada em que a cultura comunitária se afirmou como horizonte compartilhado. O Centro de Desenvolvimento Cultural de Moravia se tornou epicentro do movimento continental, em um dia atravessado por apresentações artísticas, diálogos e uma potência coletiva que avança conquistando cada vez mais espaços de poder e realização. As delegações participantes do Congresso teceram uma experiência em que o sensível e o político caminharam juntos.
A roda de conversa “Um continente de esperança que faz acupuntura cultural” reuniu representantes de governos e da sociedade civil em um exercício de escuta ativa e construção compartilhada. O tema evoca uma ideia fundante: o do-in antropológico, apresentado por Gilberto Gil em seu discurso de posse como Ministro da Cultura do Brasil, em 2003. Para Gil, o papel do Estado não é levar cultura ao povo, mas reconhecer onde ela já existe – ou seja, tocar os pontos vitais do corpo social para que a energia circule. Uma metáfora que se tornou método e política pública, dando origem à Política Nacional Cultura Viva e à consolidação de cerca de 15 mil Pontos de Cultura em todas as regiões do país.
Mais do que um painel, foi um território de confluências. Márcia Rollemberg, Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura do Brasil e presidenta do Conselho Intergovernamental do IberCultura Viva, abriu o diálogo afirmando a raiz participativa da Cultura Viva: “Uma política pública é verdadeiramente pública quando é feita com a população, com a sociedade. Este é o princípio da Cultura Viva”. Destacou a gestão compartilhada e a necessidade de uma “verdadeira parceria público-comunitária” como base para a efetivação dos direitos culturais.
Em ressonância, Vicenta Moreno, Directora de Fomento Regional del Ministerio de las Culturas de Colombia e representante do país no IberCultura Viva, ampliou a perspectiva para o continente: “É uma construção não apenas da Colômbia, mas de uma América Latina que busca e consolida um lugar de dignidade para as culturas vivas comunitárias. Uma política abraçada pela solidariedade, pela construção conjunta e por uma visão de países irmãos que caminham juntos”. Sua fala evidenciou o fio comum das lutas comunitárias que atravessam a região.
A intervenção de Ana María Restrepo, representante da Secretaria de Cultura da cidade, reafirmou o compromisso da cidade com a cultura como ferramenta de transformação social e com espaços que conectam o local ao continental. Ana destacou a importância de sustentar e atualizar as políticas a partir da experiência acumulada: “Medellín é uma das cidades que mais rapidamente construiu sua política pública e atuou a favor dessa aposta por uma cultura biocomunitária. Estamos falando do ano de 2011, e atualmente estamos em um processo de revisão dessa política”.
A mediação de João Pontes, Diretor da Política Nacional de Cultura Viva do Brasil e representante do país no IberCultura Viva, trouxe uma chave fundamental: reconhecer que a Cultura Viva Comunitária também transforma as formas de exercer autoridade e poder. “Os saberes comunitários nos ensinam que o mais importante nem sempre está nos protocolos, mas na experiência viva dos povos”, destacou, convidando a repensar as hierarquias a partir da prática cultural.
Nesse tecido de vozes, Eduardo Balán, do Instituto Latinoamericano de Cultura Viva Comunitaria (Argentina), lembrou que a dimensão afetiva também é política: “Os vínculos e o afetivo são uma parte central da nossa construção”. Ao compartilhar a coincidência simbólica de sua participação com os 30 anos de sua organização de base, reafirmou que os processos comunitários se sustentam porque nascem da vida.
Ao longo do dia, palavras e expressões artísticas se entrelaçaram, produzindo uma alquimia que transborda o institucional e toca o essencial. À noite, coletivos culturais, blocos de carnaval e participantes tomaram as ruas em uma celebração vibrante da vida em comum. Na América Latina e no Caribe, a cultura não apenas resiste: cria, transforma e recria mundos. O 7º Congresso Latino-Americano e Caribenho de Culturas Vivas Comunitárias segue até domingo (26), quando será realizada a Assembleia Geral do encontro.
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