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Experiencias

Os protagonistas da cultura comunitária em Medellín: irmãos que vale a pena encontrar na vida                                     

PorPor IberCultura

EnEm 22, mar 2021 | EnEm | PorPor IberCultura

Os protagonistas da cultura comunitária em Medellín: irmãos que vale a pena encontrar na vida                                    

 

Texto: Guillermo Cardona (*)

Tradução: Teresa Albuquerque

 

 

O presente texto é fruto de muitas conversas e experiências compartilhadas com líderes de cultura comunitária de Medellín.

No entanto, para manter um fio condutor, privilegiam-se as vozes de Jorge Blandón e Sandra Oquendo, de Nuestra Gente; Luis Fernando “El Gordo” García, de Barrio Comparsa; Juan Carlos Tabares Castrillón, de Picacho con Futuro, e Miriam Páez Villota e Arturo Vahos, de Canchimalos. Todos eles líderes indiscutíveis de corporações culturais que têm marcado nossa história, para além da história de suas próprias organizações, comunidades e territórios.

Aqui eles falam de suas origens, da maneira como têm enfrentado as vicissitudes econômicas, de seus principais desafios e conquistas. Também contam como foi o devir com relação aos atores violentos que definitivamente deixaram e seguem seus vestígios sinistros na memória da cidade. Para terminar, falam sobre a maneira como têm recebido os conceitos da cultura viva comunitária, o trabalho associado e em rede, suas relações com outras comunidades e outros projetos de Medellín, Antioquia, Colômbia e do mundo.

Uma mostra de como Medellín, seguramente em consequência das muitas tragédias que tem tido que superar, se converteu em uma experiência que guia a construção de referências conceituais que hoje são comuns (ou comunitárias?) na cultura viva ibero-americana.

Embora estas conversas não tenham ocorrido simultaneamente, elas se apresentam como uma espécie de fórum aberto, um diálogo com várias vozes, diálogo que em Medellín se mantém há muitos anos, com seus altos e baixos, mas sempre com o olhar voltado para a construção de um bem viver para todos, sem exclusões, sem distinções, sem rancores adormecidos.

Um compêndio, enfim, de bons e maus momentos; de pequenos casos e grandes histórias; um rápido panorama da maneira como, desde as ruas empinadas de nossos bairros, se alcançaram grandes transformações sociais, culturais e políticas, sem muitos recursos econômicos nem grandes desdobramentos midiáticos. Tudo com muita paciência, persistência e solidariedade, deixando em evidência o caráter alegre e festivo das organizações comunitárias de nossa cidade.

 

***

 

Dizem que os amigos são a família que escolhemos. No exercício da cultura viva comunitária em Medellín, os exemplos desses parentescos voluntários abundam. Grandes irmandades, não só entre companheiros de outros grupos e bairros e comunas da cidade, de Antioquia e da Colômbia, mas também com organizações e pessoas de muitos países (vale a redundância) irmãos. De fato, várias organizações de Argentina, Brasil, Guatemala e Venezuela trocaram experiências com Nuestra Gente e Barrio Comparsa, muito antes de se começar a falar de cultura viva ou de pontos de cultura ibero-americanos. Mas à época, como agora, a surpresa mais grata e a primeira que vem à cabeça dos líderes que se encontram é “veja como somos parecidos”. Ou como disse o diretor de Pombas Urbanas (Brasil) depois de percorrer a Casa Amarela de Nuestra Gente e conhecer um pouco mais o território e a comunidade de Santa Cruz e suas redondezas:

— Vocês são os irmãos que nós estávamos esperando encontrar na vida.

Irmãos sem problemas de heranças, porque a ideia sempre foi compartilhar experiências, metodologias e estratégias para atuar no território, para saber dar a palavra e ouvir. Unidos no propósito de trabalhar pelo bem viver de suas comunidades. Toda uma empresa rica em vitalidade e sobretudo em alegria, embora ao final contábil de cada ano a única coisa clara é que seguem em déficit.

 

Por dinheiro não se preocupem porque dinheiro não há

Dinheiro, claro, não é algo que abunda nos bairros, mas as organizações comunitárias de Medellín, os líderes, voluntários e amigos jamais se queixam e procuram excluir de sua maneira de pensar e até de pronunciar a palavra carência. Para Jorge Blandón, de Nuestra Gente, “o assunto é, nunca carência, o assunto é de vitalidade, de capacidade simbólica e expressiva; de saber somar inteligências para alimentar os processos de criação em que a própria comunidade seja a protagonista. Para isso não se necessita de dinheiro”. É necessário ter vontade, diz, disposição de compartilhar e, sobretudo, completa Jorge numa espécie de mantra que repetem outros líderes de Medellín com as mesmas palavras: muita, muita alegria.

Juan Carlos Tabares, da Corporación Picacho con Futuro, por sua vez, assegura que a potência das organizações não está nos recursos.

— Nós, por exemplo, quando queremos oferecer atividades para as crianças em janeiro e não há nenhum centavo, abrimos só com voluntários. Os materiais conseguimos com os pais de família; se necessitamos docentes e facilitadores, falamos com amigos para ver quem pode ministrar uma oficina ou liderar uma atividade. E assim vamos. Somos um projeto coletivo e as portas de nossa corporação seguem abertas enquanto a comunidade assim o quiser”.

Comparsa popular

 

 

O sancocho como patrimônio cultural de Medellín

Jorge Blandón destaca, ademais, “o caráter festivo da organização comunitária. Os vizinhos unidos pelos problemas que os desafiam, as comunidades que se encontram para solucioná-los”. E afirma com absoluta convicção:

— O convite é o ato festivo por excelência, que convoca as pessoas a construir desde a casa de um vizinho até o esgoto do bairro.

Juan Carlos Tabares, de Picacho con Futuro, reivindica, também, “a maneira como temos construído bairro, comunidade, território, através de umas práticas culturais ancestrais, como o convite, a solidariedade, a ajuda mútua, mas também com a música, o folclore, a comida”.

E é certo. Um botão basta para mostrar. O sancocho no convite tem tido um papel fundamental na construção da cultura comunitária em Medellín. O convite funcionava mais ou menos assim: os vizinhos entravam com a mão de obra, o município com os materiais e a comunidade se encarregava de fazer o sancocho, um delicioso caldo em que se cozinha, segundo uma ordem estrita, carne de boi, porco ou frango (quando vai com as três se chama trifásico), além de plátano, batata, mandioca, cenoura, em água temperada com alho e cebola e, uma vez servido, salpicado com abundante coentro finamente picado. O prato vem acompanhado de arepa, arroz branco, banano criollo e uma boa fatia de abacate; de sobremesa, mazamorra de milho com leite e goiabada. Com esse acordo, em nossa cidade construíram-se escolas, sedes sociais e comunitárias, quadras poliesportivas e centros de saúde; pavimentaram-se ruas, acondicionaram-se calçadas e escadas públicas. Convites que também se armavam sem o concurso da prefeitura quando vizinhos se ajudavam para construir ou melhorar suas casas; nestes casos, o anfitrião se encarregava dos materiais, mas era a comunidade que de novo se unia para pôr a mão de obra e montar o sancocho.

 

Ao som de uma comparsa

Outro fator preponderante na construção da cultura comunitária em Medellín é a comparsa (bloco carnavalesco). De alguma forma herdeira de costumes muito arraigados, como as festas patronais dos bairros e suas bandas marciais, organizações como Nuestra Gente, Canchimalos e Barrio Comparsa ajudaram a dar a essas festividades um novo significado, em que os ares, os ritmos, somados às brincadeiras de rua, as estrofes e os versos, provinham do folclore colombiano, de nossas tradições espanholas, africanas e indígenas.

Luis Fernando García, El Gordo do Barrio Comparsa, ator lúdico, festivo e carnavalesco, gestor cultural e zanquero (perna de pau), vê na comparsa um instrumento social e político para recuperar o espaço público, e também a alegria das famílias, a possibilidade de que as crianças possam sair à rua para brincar e rir. E lembra:

— Em 1989 a cidade caiu no caos da violência, do sicariato forte, do assassinato de rapazes indiscriminadamente. Meu bairro, Manrique Oriental, virou um campo de batalha que se disputa rua por rua, esquina por esquina.

El Gordo, trabalhador do teatro de rua, do lúdico e da pedagogia em Moravia (quando era ainda lixeiro municipal) e no Jardim Botânico, tinha tido que lidar com muitos problemas e momentos críticos, mas aquilo parecia estar fora de suas possibilidades.

— Meu trabalho sempre havia sido na rua. Então eu fui perdendo meu espaço vital. Me deu raiva e me incomodou, como a muitos, o toque de recolher que impôs então Pablo Escobar. Me perguntava: como assim? Todo mundo recolhido às sete da noite?

Foi nesse momento que ele decidiu tomar a rua com seu grupo A Recreo Teatro.

— Mas as pessoas estavam muito assustadas, não saíam, não respondiam ao chamado. Foi em dezembro de 1990, quando me encontrei com Jorge Blandón e outros líderes da comuna, que acordamos fazer um chamado a todos os grupos do território para montar uma comparsa, tomarmos a rua e romper essas fronteiras e horários que nos impunham os violentos.

O resultado: de 4 a 11 de março de 1991, os teatreiros, os pernas de pau, os palhaços, as mariposas, as bailarinas, os saltimbancos, tomaram as ruas de Manrique, Aranjuez e Santa Cruz. Participaram 56 organizações.

— Sempre nos diziam: “ouçam, não se metam ali que há muito malandro” — lembra El Gordo—. E o que aconteceu com a primeira comparsa que fizemos? Veja. Eu era como o anjo protetor, pendente, porque íamos com crianças, mamães, adolescentes, e quando íamos passar a batea que então comunicava com o bairro Aranjuez, uma senhora se aproxima e me diz: “Olhe, senhor, dom Gordo, olhe para cima. Nessas casas há uns rapazes com umas  armas compridas, olhando-os por algumas coisas; não passem por aqui que vão matar vocês”. E eu disse: senhora, venha, nos abrace, venha, cantemos, bailemos, relaxe, vamos passar esta batea, e é certo que ninguém vai disparar. E ela disse “Nãooo”. E eu, para tranquilizá-la, disse: Sabe que, senhora, nesta comparsa vêm os irmãozinhos, as mamães, as tias, as avozinhas dos que estão ali. Eles não vão disparar contra seus familiares, venha, deixe o medo.

Por fim, a comparsa chegou a Aranjuez, e apareceram Los Priscos e outros malandros do setor, muitos vizinhos dali temerosos do que pudesse acontecer, e os caras felizes dançando com todo o mundo.

— Dois ou três anos depois — comenta El Gordo —, um desses garotos que estavam nas lajes me contou que, na verdade, não estavam apontando para ninguém, estavam utilizando os visores telescópicos dos fuzis para ver a comparsa.

Oficina de perna-de-pau

 

 

 

Comparsas em rede

Com essa tomada do espaço público conseguiu-se abrir o caminho para o ingresso do Estado às comunas, aquelas que até então não podia entrar nem a polícia. Perdeu-se o medo e deram-se os primeiros passos para o trabalho solidário, conjunto e em rede que vêm fazendo as organizações culturais comunitárias de Medellín desde então e até agora.

Entre 1991 e 1997, Barrio Comparsa esteve percorrendo a cidade, visitando organizações, ações comunais e grupos juvenis. Começaram a romper essas fronteiras e foi se consolidando uma rede que ainda sobrevive.

— Muitos dos rapazes que estiveram conosco nesta época — afirma El Gordo de Barrio Comparsa—, já têm organizações e carnavais nos bairros. Vou aos carnavais da Comuna 13, do 12 de Octubre, de Villa Hermosa, de Buenos Aires, e os garotos que começaram conosco seguem multiplicando nossa metodologia. Assim ajudamos a construir uma política de cultura comunitária, como uma expressão nascida de todo este fenômeno pedagógico que é a festa de rua.

E conclui:

— Como tenho vivido na própria carne, sei que a relação com o outro é a partir de uma metodologia da alegria, que é a metodologia de Barrio Comparsa. Quando nós começamos a trabalhar com os rapazes, a criar oficinas de expressão, de dança, de música, de pernas de pau, tudo isso, o que havia ali era uma alquimia da alegria. Cria-se um espaço sensível para que os garotos desenvolvam outras aptidões, interessem-se por outras temáticas que têm a ver com a arte, com a saúde, com a sexualidade, com a droga. E isso de que na comparsa possam se relacionar com a mãe, com o irmão, com a tia e com a namorada, realmente faz dela uma proposta integral de ação comunitária para o desenvolvimento dos territórios, com a participação de todos.

 

Barrio Comparsa (Foto: Luis Fernando García)

 

A teologia da libertação, o outro lugar para a festa

Outro aspecto a destacar dessas primeiras tentativas de organização comunitária em Medellín tem a ver com os grupos juvenis que se reuniam ao redor da paróquia, um espaço de encontro de meninos e meninas que de outra forma jamais chegariam a se conhecer e onde, em muitas ocasiões, foram dados os primeiros passos de muitas organizações culturais e comunitárias que ainda hoje seguem trabalhando na cidade.

Estamos falando dos anos 70 e 80, e em Medellín se sentia como em poucas cidades do continente o surgimento e o arraigo da Teologia da Libertação (o outro lugar da festa), nascida justamente na Conferência Episcopal Latino-americana que se realizou em 1968 nesta vila, e onde se impôs o novo mandamento da Igreja Católica: a opção pelos pobres.

Em El Salvador estava o Monsenhor Óscar Arnulfo Romero (hoje no santoral), e no Peru, o padre Gustavo Gutiérrez. E ainda que em Medellín a igreja estivesse sob a férula de um arcebispo de conservadorismo extremo como Alfonso López Trujillo, nos bairros vivia-se intensamente essa opção pelos fracos, pelos humildes e, claro, pelos jovens. E a ação e a mensagem de sacerdotes como Federico Carrasquilla, Vicente Mejía ou o padre Calderón corriam pelas ladeiras do Valle de Aburrá, onde os jovens faziam amigos e companheiros de sonhos, uma irmandade que se manteve e se fortaleceu quando começou a materializar-se o fantasma do narcotráfico em forma de vendettas, assassinos em moto, carros bomba, dor e morte.

 

Comuna 13 (Foto: David Duque Monsalve)

 

 

Picacho con Futuro, uma organização comunitária de segundo nível

Outra questão, não menos importante no fortalecimento da cultura comunitária em Medellín, foi sua capacidade de se organizar. Um claro exemplo é a corporação Picacho con Futuro.

Transcorria o ano de 1987 e havia uma grande quantidade de pessoas organizadas em muitos grupos. A Corporação Picacho con Futuro se formalizou sob a figura de segundo nível, como uma forma de reconhecer o que acontecia nestes territórios e que as pessoas tinham a necessidade de organizar-se e trabalhar juntos.

Hoje em dia, a corporação é integrada pela Asociación de Madres Comunitarias El Triunfo, o Club Deportivo Senderos de Paz, a Corporación de Barrios Unidos, a Junta de Acción Comunal Progreso N.º 2, e Panorámica: Comunicación y Periferias.

Por 30 anos, Picacho con Futuro tem possibilitado esse encontro para estabelecer vínculos com pessoas que estão pensando no território com outras orientações, onde há crianças, jovens, adultos, adultos maiores de 60 anos. Um palco para o encontro e o intercâmbio.

Isso abre possibilidades, mas também gera dificuldades para trabalhar com o outro. Como conta Juan Carlos Tabares, um dos líderes da corporação, realizar atividades de vários dias em que participavam, por exemplo, uma junta de ação comunal e um grupo juvenil, era um problema.

— Esses rapazes não nos deixam dormir — diziam os adultos.

Os jovens, por sua parte, se queixavam dos membros da junta.

— Que senhores chatos.

Viver essas dificuldades, complementa Juan Carlos, foi nos dando metodologias, ferramentas, reflexões de como possibilitar um trabalho em comunidade, a partir do reconhecimento e do respeito pelo outro.

Agora, qual é o segredo para reunir vontade com propósitos comuns e visões distintas? Juan Carlos responde:

— O segredo é a paciência e a permanência das apostas. Ou seja, acredito que uma das grandes conclusões a que a corporação tem chegado, em termos de reflexão, é a de que não podemos falar de processo se o programa dura seis meses. Quando nos pusemos a pensar em transformar as condições de vida do setor do Picacho, não imaginávamos que 30 anos depois íamos seguir na luta. Mas hoje nossos processos enfatizam justamente o trabalho com a infância, porque em uns 20 anos essas crianças contribuirão para que a comunidade viva bem, em condições de respeito e convivência. É a paciência e a permanência o que garantirá o sucesso dessas dinâmicas.

 

 

 

Los Canchimalos e a brincadeira de rua

Um fator não menos transcendente na construção de uma cultura viva comunitária em Medellín foi a brincadeira de rua, as rondas, as danças e o sainete (peça teatral cômica). E nesse assunto a Corporación Canchimalos é especialista, em boa parte graças ao trabalho investigativo, pedagógico, lúdico e comunitária de seu fundador e primeiro diretor, Óscar Vahos (1945-2004), que durante uns 30 anos se dedicou a pesquisar danças e brincadeiras jogos tradicionais. Ele viajava com gravadores, câmeras fotográficas e câmeras de vídeo na mão, percorrendo diferentes regiões da Colômbia. E recolheu uma grande quantidade de material que, ainda que não tenha sido muito valorizado em sua época, hoje, quando o assunto é o patrimônio cultural imaterial, se vê revestido com a importância e interesse histórico que sempre deveria ter tido.

A partir dessas pesquisas, dessas indagações, nasce a aposta comunitária e pedagógica de pôr o jogo sobre a mesa. A ideia sempre foi que as pessoas deixem de ver a brincadeira como uma perda de tempo.

Cinco negritos; Tortuguita; Aguacerito; Lerolero; Chururún; Cucharita; La madre Florinda; La chica del aro; 1, 2 y 3; La yuca; El pollito; Chelelé; La vaca; Boroboró; La pava; Chupaté; Pablito; Cauchitos; Rosita, e muitos outros mais criados por Canchimalos, dão conta de muitos anos de pesquisa e trabalho criativo para dar cor, música e dança com sabor colombiano às brincadeiras e as rondas.

Para Miriam Páez, bailarina e coordenadora de Canchimalos, a brincadeira é a conquista, mas também o desafio. Dar lugar ao brincar nos tempos de ócio, e dar lugar ao brincar a partir de outras disciplinas, como a pedagogia, a psicologia, a antropologia. Ainda que no fim o brincar seja importante por si mesmo.

— Ainda hoje há muitos lugares onde as pessoas não saem para brincar na rua, como na Comuna 13, onde há pouco fomos tomar a rua, brincando.

O projeto se chama “Brincar na cidade”, para ver se Los Canchimalos conseguem pintar a cidade e mudar até as faixas do trânsito por rayuelas e golosas (jogos de amarelinha).

Arturo Vahos

— E não tem que ser um jogo didático — afirma Arturo Vahos, atual diretor da corporação —, a pessoa também aprende muitas coisas fazendo nada. Ou participando de jogos que não correspondem com a idade.

— Isso é vital — intervém Miriam. A dimensão lúdica é independente da idade. Não tem que voltar a ser criança, há idades para certas brincadeiras, mas as crianças também podem brincar com os adultos sem problemas. E aí está o desafio. Desafiar os adultos a sair. Além de outros assuntos que são mais da institucionalidade… Porque há zonas onde podemos ir e pintar jogos nas ruas e outras que não, e não é pelos armados, porque eles não nos colocam dificuldades. Complica mais a polícia com o código. Nos custa mais pela institucionalização dos espaços, que se tornam oficiais e intocáveis.

Um código que sacraliza o cimento e o asfalto e transforma em contravenção brincar no espaço público ou desenhar flores e mariposas no chão.

E em muitos setores, talvez como herança das guerras que Medellín tem padecido, ainda custa tirar os meninos de casa. Às vezes eles saem quando lhes dão permissão. Mas os adultos seguem encerrados no seu cansaço, na sua amargura.

— Além disso, os adultos ficam nervosos — conta Miriam —, porque nessa relação de brincadeira e arte que propomos, nós os convidamos a pintar, a ter outras experiências estéticas, outras experiências lúdicas. E isso os espanta um pouco.

Outro assunto fundamental é que não querem obrigar as crianças a se transformarem em adultos em miniatura.

— Com os festivais infantis de dança isso acontece. As crianças têm o mesmo vestuário e a mesma coreografia dos adultos, mas em escala — assegura Miriam. O que nós propomos são composições diferentes, e as crianças podem defini-las sem a necessidade de imitar o que os maiores fazem, porque têm sua própria linguagem, sua própria estética.

 

 

 

Os duros anos das guerras nas ruas: Picacho

 

Quando os paramilitares barraram a sangue e fogo a tristemente célebre Banda de Frank, que acusavam de guerrilheira, chegaram a impor à base de medo e pistola seu discurso contrainsurgente e ditatorial. Rapidamente se apresentaram, armados, na sede de Picacho con Futuro.

— Nos demos conta que vocês vão fazer um evento. Por que não pediram permissão? — reclamaram os paramilitares aos voluntários presentes.

E os de Picacho respondiam:

— Este evento estamos fazendo há dez anos e nunca pedimos permissão a ninguém.

— É que nós devemos cuidar da segurança do evento.

E os de Picacho refutavam:

— Nós temos feito este evento há dez anos, e volto a lhe dizer que nunca tivemos medo de fazê-lo. Quem tem medo são vocês. No dia em que tivermos medo, chamamos a polícia, para que cuidem de nós. Mas nem a polícia nós nunca convidamos.

— Vocês são muito grosseirinhos, muito soberbos.

Os paramilitares se impacientavam cada vez mais, e no fim perguntaram qual seria, para eles, a saída que necessitavam para pressionar uma pessoa em particular.

— Bem, vamos ver. E quem manda aqui.

Os de Picacho con Futuro, por medo, por intuição, tratando de não mostrar a ninguém, responderam:

— Aquí manda a comunidade.

— Então com quem nós temos que falar para poder desenvolver algumas atividades nesta sede?

— Olhem — retrucava algum dos de Pichacho. Nós somos um grupo de pessoas, habitantes do território, e entre todos decidimos qual deve ser o rumo disso e o que se faz aqui. De maneira que se querem ter um espaço na sede da corporação, temos que reunir toda a comunidade para tomar a decisão. E, claro, que vocês nos contem o que é que querem fazer.

— A partir desse momento — retoma o fio Juan Carlos Tabares —, entendemos que não era intuição. É verdade que com o ator armado é preciso ser mais contundente. Reuniões? Conversas? Eles não aceitaram. Não gostavam do coletivo. E nós dizíamos: aqui é assim.

Era muito difícil confrontá-los porque se tratava de criminosos, de pessoas dispostas a matar pelas razões mais triviais.

Juan Carlos Tabares lembra que tiveram que acudir aos bons ofícios de seus contatos, amizades, irmandades e laços de solidariedade que haviam tecido por anos, tanto no bairro como na cidade.

— Chegou ao ponto em que os desmobilizados foram chamados por certos setores da institucionalidade, da igreja, que lhes disseram: essa organização é um projeto desta comunidade e vocês não podem, em nenhum momento, se meter com eles.

No fim, esses novos atores violentos que agora manejavam o bairro ficaram com a ideia de que Picacho con Futuro era uma espécie de embaixada que não se podia tocar.

 

A magia da brincadeira

Miriam Páez, de Canchimalos, para ilustrar a relação da corporação com os grupos violentos, lembra o caso de uma companheira que estava fazendo umas oficinas de ecolúdica num bairro popular. Ela começou sua oficina, normal, com a comunidade, quando logo viu três personagens parados ali, olhando para eles. Ela disse: venham, porque aqui ninguém pode estar paradinho, se vão estar conosco vocês têm que brincar. E eles: “Uhmmm”.

— No final, ela acabou envolvendo eles — comenta Miriam —, colocando-os para brincar. Terminada a oficina, as pessoas foram embora super contentes, mas já de saída chamaram-na de lado e lhes disseram: esses três tipos que você pôs para brincar são dos que têm controlado aqui o território. Ela completa com convicção: — Então, olha o que o jogo fez. No momento da oficina, não houve aversão ou resistência nem da parte deles com as pessoas, nem das pessoas com eles. O jogo conseguiu isso. A brincadeira faz com que você veja o ser humano que está aí, não a cor da pele nem o gênero, nem a orientação sexual nem a afiliação política… A brincadeira tem essa magia.