Publicação apresentada no 7º Congresso Latino-Americano e Caribenho de Culturas Vivas Comunitárias articula memória, análise e projeção das políticas culturais de base comunitária no espaço Ibero-Americano
A escrita é um corpo da memória – e, quando se torna livro, organiza o vivido em horizonte compartilhado. No marco do 7º Congresso Latino-Americano e Caribenho de Culturas Vivas Comunitárias, realizado em Medellín (Colômbia), o Programa IberCultura Viva apresentou a publicação “IberCultura Viva +10 aanos: integração de base comunitária e direitos culturais”. Mais do que um balanço, o livro se afirma como cartografia das políticas culturais comunitárias na região, suas trajetórias, tensões e modos de organização, com protagonismo da sociedade civil. O lançamento foi realizado na sexta-feira (24), na Universidade de Antioquia.
A mediação do encontro partiu de uma convocação afetiva e política. Ao situar a publicação como parte de um processo coletivo, Flor Minici, da Secretaria Técnica do Programa e uma das organizadoras da obra, recordou que os congressos sempre foram espaço de encontro e escuta, e que o livro nasce justamente desse impulso: envolver quem, ao longo de quase doze anos, foi protagonista dessa história. A celebração da primeira década do IberCultura Viva foi evocada como expressão de uma cultura política que cresce e se consolida, mesmo neste tempo de pressões geopolíticas intensificadas. “O livro assume uma responsabilidade histórica para que as memórias contribuam para a continuidade da efetivação das políticas culturais de base comunitária”.
Também organizador da obra, Diego Benhabib situou o livro no interior de um processo de maturidade institucional. Desde o início, a intenção foi refletir como se fortaleceu a institucionalidade da cultura comunitária nos países membros e como se disseminou, pelo continente, a ideia dos Pontos de Cultura e dos programas que têm a cultura viva como eixo. Sobre a presença de Néstor García Canclini entre os autores, foi preciso: “a dimensão que toma a cultura comunitária com García Canclini falando sobre ela é algo maravilhoso que temos que aproveitar, que nos deixa questões para pensar.”
Na continuidade, Herman Montoya Gil, líder do Programa de Bibliotecas, Leitura e Patrimônio de Medellín, reforçou o caráter colaborativo da obra. Construída a muitas mãos, entre instituições públicas, redes e territórios, a publicação carrega a assinatura editorial da cidade, parceira desde os primeiros momentos, e expressa, concretamente, uma política cultural construída em diálogo.



Conquistas e desafios
A presidenta do Programa, Márcia Rollemberg, situou a cultura viva comunitária como política de efetivação de direitos culturais e reconheceu, com franqueza, a dor do crescimento: “os resultados são positivos, mas temos que nos apropriar dos desafios – isso é o mais importante para que possamos conquistar novas etapas da história.” No Brasil, após mais de duas décadas, uma institucionalidade importante foi conquistada, e o caminho segue em construção.
Ao aprofundar essa perspectiva, destacou que o avanço do Programa passa também por estratégias concretas de cooperação, articulação e incidência. Entre elas, a consolidação de redes, especialmente de governos provinciais e municipais, como caminho para fortalecer políticas públicas para além dos níveis federais, ativando a autonomia dos territórios. Ressaltou ainda o papel da rede educativa, que vem ampliando o reconhecimento dos saberes da cultura popular, incluindo a valorização de mestres e mestras como sujeitos de conhecimento também no âmbito acadêmico.
Apontou, por fim, a importância de outras frentes em desenvolvimento, como as redes voltadas à infância e os esforços no campo legislativo, que buscam registrar, consolidar e projetar o que foi construído ao longo desses mais de dez anos, afirmando a cultura viva comunitária como política pública de longo prazo.

Uma demanda da sociedade, um acervo do continente
Alexandre Santini, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, nomeou com precisão a força singular do IberCultura Viva no campo da cooperação internacional: “é um Programa que é fruto de uma construção das organizações, do movimento”, e sua potência está justamente aí, de ser “uma demanda da sociedade que vem também desta dimensão de participação na construção da política.” Ao evocar Medellín como território simbólico, conectou passado e presente. Voltar à cidade (a primeira a ter uma política local de culturas vivas comunitárias, precedida pela mobilização da sociedade civil) é, para ele, “recobrar o sentido original deste movimento.” Destacou também os congressos como espaços de formação política e sensível, lugares de onde “uma pessoa sai transformada.”
Para aprofundar sua análise, chamou atenção para uma dimensão estruturante que atravessa tanto o livro quanto o percurso do Programa: “a compreensão da cultura viva comunitária como uma escola latino-americana de políticas públicas.” Mais do que um campo de atuação, trata-se de “um espaço formativo que articula incidência política, organização social e produção de conhecimento.” Nesse sentido, destacou que “o movimento não apenas influencia políticas públicas, mas também forma sujeitos capazes de construí-las, em um trânsito contínuo entre territórios, organizações e governos.” Ressaltou ainda que muitos dos textos da publicação têm origem em espaços de investigação, evidenciando “um campo em que prática e reflexão caminham juntas” e que revela “o caráter transversal e vivo da cultura comunitária na América Latina.”
O lançamento contou ainda com a presença de Vicenta Moreno, diretora de Fomento Regional do Ministério das Culturas da Colômbia e representante do país no IberCultura Viva, e de Elizabeth Giraldo Giraldo, enlace técnica da REPPI na mesma Direção, vozes que reforçam a dimensão institucional e a capilaridade continental do Programa.
Ao final, o público também tomou a palavra. Perguntas, comentários e reflexões ampliaram o debate e reafirmaram que o livro não se encerra em si: abre-se como ferramenta viva, convocando novas leituras, críticas e continuidades. Entre falas, memórias e projeções, o lançamento reafirma o que o Programa vem tecendo há mais de uma década, uma política cultural construída desde os territórios, que aprende com suas práticas e projeta futuros possíveis a partir da força coletiva da América Latina.

Inteligência coletiva, download gratuito
Construída ao longo de mais de um ano, no marco dos dez anos do IberCultura Viva, hoje integrado por 14 países, a publicação se apresenta como percurso. Reúne textos, artigos, pesquisas e reflexões oriundas de iniciativas desenvolvidas no âmbito da parceria entre a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Cátedra UNESCO de Políticas Culturais e Gestão e o Programa IberCultura Viva, incluindo espaços de intercâmbio e produção de conhecimento como o Seminário Internacional Cultura Viva Comunitária: uma escola latino-americana de políticas culturais, realizado na Cidade do México, e o XIV Seminário Internacional de Políticas Culturais da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
O livro inicia situando o próprio Programa como algo que ultrapassa a dimensão técnica: uma rede viva de vínculos, processos e territórios. A partir daí, avança para uma reflexão sobre a cultura de base comunitária como caminho potente de integração latino-americana, em diálogo com contribuições de pesquisadoras/es como Lia Calabre, Emiliano Fuentes Firmani e Sara Díez Ortiz de Uriarte.
O percurso se desloca então para o território concreto, com um panorama por país, antes de se abrir às perguntas do porvir. As “agendas de futuro” tensionam o presente ao convocar imaginações comunitárias diante da inteligência artificial. A obra culmina com o pensamento de Néstor García Canclini sobre os desafios contemporâneos entre instituições e plataformas digitais. Como gesto final, um anexo recupera um diálogo próximo com o autor, mantendo aberta a conversa.
