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Experiências

Itziar Rubio e Ventana a la Diversidad: conectando culturas, construindo redesItziar Rubio e Ventana a la Diversidad: conectando culturas, construindo redesItziar Rubio e Ventana a la Diversidad: conectando culturas, construindo redes

Por IberCultura Viva

Em30, Mar 2017 | Em | PorIberCultura Viva

Itziar Rubio e Ventana a la Diversidad: conectando culturas, construindo redes

Ela se define como um “bicho raro”. Diz isso entre risadas, porque tem uma parte de artista de rua e outra mais próxima da academia. E porque há 10 anos leva a vida do outro lado da margem de sua terra natal, o País Basco (Espanha), conhecendo a realidade de países latino-americanos como Peru, Brasil, Chile, Argentina e Uruguai e incorporando aprendizados de cada lugar por onde passa. “Sou uma mescla de muitas coisas. Sou de muitos lugares”, afirma a percussionista e agente da cooperação internacional Itziar Rubio Barrera.

“Itzi”, como é conhecida, é cofundadora e coordenadora operativa da ONG Ventana a la Diversidad, uma rede colaborativa que conecta jovens de diversas raízes culturais através da arte, da criatividade e das novas tecnologias. Tem dedicado sua vida profissional à gestão cultural, sobretudo com enfoque comunitário, e ao mundo da cooperação internacional, voltada à cultura para o desenvolvimento social.

“Me interessa muito conectar culturas, tenho enfocado meu trabalho em educação e cultura na América Latina sobretudo aos jovens, às populações indígenas e aos afrodescendentes”, conta. “E sempre tenho um pé em dois lugares. Me interessa muitíssimo o que passa na política, em distintos níveis dos governos, e ao mesmo tempo estou na rua, com as organizações de base. Isso me ajuda a entender os ecossistemas de uma maneira mais holística e me ajuda a estar em espaços onde nem todos pensam como eu, o que me enriquece também”, acrescenta.

 

A cooperante

Faz 12 anos que Itziar viveu sua primeira experiência como cooperante. Primeiro esteve no Brasil, como voluntária em um projeto em que trabalhava com crianças na Vila Ipiranga, uma favela de Niterói (Rio de Janeiro), dando classes de percussão em uma escola de música, como responsável por um projeto internacional de apadrinhamento de crianças. “Aí reafirmei minha vocação, vi que tinha que seguir neste caminho da comunidade, da arte, da inclusão, da criatividade e da magia”, ressalta.

Os estudos em cooperação internacional e desenvolvimento social na Universidade do País Basco vieram bem, e trabalhando neste campo ela recebeu uma bolsa da Unesco Mercosul. Passou vários anos em Montevidéu, no Escritório do Mercosul para Uruguai, Chile e Argentina. Daí passou a trabalhar para a AECID, a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Primeiro na Argentina, depois no Peru. Em paralelo, Itzi tem desenhado e implementado consultorias técnicas para organismos internacionais.

Itziar no Encontro de Redes IberCultura Viva, em Buenos Aires (foto: Georgina García)

Com o circo

No Peru, trabalhou os últimos três anos como coordenadora regional do programa Cuerda Firme, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O projeto foi realizado entre 2014 e 2017 com o trabalho colaborativo de três organizações culturais “hermanas”: a peruana La Tarumba (encarregada da coordenação regional), a argentina Circo del Sur e a chilena Circo del Mundo. Seu objetivo era criar na região um modelo sustentável de empregabilidade e inserção laboral juvenil através do circo social. (O modelo regional para a empregabilidade já se encontra disponível para download gratuito no site www.cuerdafirme.com)

“O circo estimula o desenvolvimento da criatividade, da disciplina e da responsabilidade, além do trabalho em equipe e da capacidade para assumir riscos. Um risco controlado, como na vida”, comenta a coordenadora, admiradora do trabalho de La Tarumba  há muitos anos, especialmente por suas linhas de ação transversais (a pedagógica e a artística) e ferramentas metodológicas (a brincadeira, a criatividade e o afeto).

Dos 1.500 jovens da região que participaram da capacitação por meio das artes circenses, 52% foram incorporados no mercado de trabalho depois dos três anos de Cuerda Firme, e 93% melhoraram suas habilidades socioemocionais (ou “habilidades brandas’) graças ao programa. Além disso, 60% dos empreendimentos criados por meio do programa seguem ativos. “O grau de satisfação dos jovens é muito alto”, comenta Itzi, ressaltando também a presença de Cuerda Firme em 18 países da Europa, da América Latina e Oceania. 

Cuerda Firme teve a coordenação da escola de circo La Tarumba

Os intercâmbios

Itziar chegou a La Tarumba por recomendação do Ministério da Cultura do Peru e da AECID. Também tem tido vínculos de trabalho com o ministério, em temas de formação para empreendedores/as culturais e criação de redes colaborativas através da arte, sua especialidade.

Por meio da Direção de Artes do Ministério da Cultura, coordenou em 2014 e 2015 a Red Sonar, a primeira rede de intercâmbio criativo entre jovens empreendedores culturais do Peru, da Colômbia e do Uruguai. “O projeto enfoca sobretudo o fortalecimento da integração do setor música na região. A Red Sonar conecta profissionais da gestão musical, fortalecendo assim o ecossistema cultural latino-americano, o mercado de indústrias culturais da região, o intercâmbio criativo e artístico entre a juventude empreendedora”, explica.

Em seu currículo também constam trabalhos para a Municipalidade Metropolitana de Lima (a coordenação do programa Fiesta en la Calle 2014); a Universidade de San Carlos de Guatemala (como docente de módulo sobre empreendimentos criativos de base colaborativa) e o Instituto de Relações e Investigações Internacionais para a Paz da Guatemala (a coordenação do projeto de cooperação “Comunicación Social Intercultural a través de la Creación Audiovisual”), entre outros.

São muitos os projetos, e muitos os pontos em comum. Entre eles, a intenção de criar empreendimentos criativos socialmente responsáveis, potenciar a aproximação de diferentes culturas, favorecer as bases para um diálogo intercultural e uma cultura de paz a partir da criatividade e da juventude.

(Foto: VEDI)

A “ventanera”

Ventana a la Diversidad, a iniciativa que reúne mais firmemente esses ideais, é um projeto pessoal que Itziar desenvolve há sete anos com dos grandes amigos – Guillermo “Willy” Maceiras, o coordenador criativo, e Daniel Martínez, o comunicador responsável pela área de redes e conectividade.

“Nos ocupamos sobretudo com o tema da comunicação audiovisual de base colaborativa e com uma mirada intercultural, conectando jovens e saberes de distintas culturas no mundo”, explica. “Assim foi que conseguimos formar uma comunidade de ‘ventaneros e ventaneras’. (Como vê) não costumo me entediar (risos)”.

A organização nasceu no País Vasco, mas os “ventaneros e ventaneras” (aqueles que veem ou se deixam ver pela janela) estão em várias partes do mundo, fazendo criação transmídia num intercâmbio de imaginários e sensibilidades. Nesta plataforma global de arte colaborativa – que aposta no poder da criatividade como fonte de progresso e marco de entendimento entre os povos –  todo o processo criativo surge do contato entre diferentes perfis de pessoas e culturas.

(Foto: VEDI)

 

Em corrente

Em Ventana, a ideia é que a criação seja realmente uma viagem compartilhada através da criatividade intercultural e colaborativa. Se alguém traça uma linha sobre um lenço, outro traça a seguinte; se um compõe uma canção, outro lhe dá coloca uma imagem… Pensando assim, jovens bascos, yucatecos (México) e guaranis (Brasil) fizeram uma corrente de videocartas quando criaram a obra multimídia  “Same same, but biodiverse” (É a mesma, mas biodiversa) para o projeto “Ventana a la Biodiversidad”, um dos selecionados no Edital IberCultura Viva de Intercâmbio, edição 2015.

Para que todos os grupos pudessem falar das problemáticas ambientais de suas localidades, cada um escolhia uma questão de seu contexto, e outro grupo lhe respondia com um vídeo e propunha uma nova problemática, começando uma nova corrente, com outra questão, outra resposta… E assim, desde um ponto de vista crítico e criativo, pudessem falar de agroquímica, desmatamento, contaminação, exploração insustentável de recursos naturais, etc.

“Ventana tem a característica de ser agregador de potências. Onde passam tentam construir redes de trabalho”, comenta o cineasta brasileiro Ж (Kaká), da organização .txt, com quem Ventana dividiu esta tripla obra multimídia e também um projeto de formação no Brasil chamado “Fazer o Mundo Fazendo Vídeo”.

A etapa brasileira do projeto Ventana a la Biodiversidad (foto: .txt)

O encontro

Este ano, também com o apoio de IberCultura Viva, será realizado no País Basco o Primeiro Encontro Internacional Comunidade VEDI (a abreviação vem de Ventana a la Diversidad). Com duração de uma semana, prevista para setembro, na costa do Golfo de Vizcaya, este espaço de criatividade colaborativa entre juventudes de diversas culturas estará baseado em duas premissas: coaprender e cocriar.

Com este encontro – um dos selecionados no Edital IberCultura Viva de Apoio a Redes 2016 – espera-se que os/as jovens participantes reflitam e melhorem seus conhecimentos para se converter em agentes que promovam iniciativas socioculturais em suas comunidades. Que busquem práticas que deem resposta às problemáticas locais do meio-ambiente. Que defendam não somente o meio ambiente, mas também a igualdade de gênero, a diversidade, a interculturalidade, a integração.

Conectando culturas, construindo redes, olhando para os lados, Itzi e os “ventaneros” sabem que podem chegar longe.

 

Leia também:

Ventana a la biodiversidad: a criatividade como ponte de entendimento entre as culturas

La Tarumba e o programa Cuerda Firme: o circo que transforma vidas

 

Saiba mais:

http://www.abrituventana.org/

http://www.ventanaalabiodiversidad.org

www.facebook.com/ventanaaladiversidad