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Por IberCultura

Em22, Feb 2016 | Em | PorIberCultura

Comunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leitura

Fotos: Dana Albicker

Lembra o livro que o fez querer ser um explorador de planetas remotos? Ou o conto que o fez ficar amigo do monstro que vive embaixo da cama? Ou o primeiro poema em que reconheceu o amor? Os “comelivros” avisam: se respondeu “sim” a qualquer uma destas perguntas, você também é um deles. E para ajudar que mais meninos e meninas o sejam, a Comunidade Comelibros vem instalando uma rede de clubes do livro em bairros antigos da cidade de Puebla, no México. Cada clube conta com um acervo especializado em literatura infantil e busca criar espaços para o intercâmbio de conhecimento, propiciando a participação de vizinhos nas atividades comunitárias e criando novos sentidos de pertencimento.

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Pensando na leitura como um ato poderoso, revelador e sobretudo prazeroso, o projeto tem como objetivo fazer do livro um personagem cotidiano e necessário na vida das pessoas. Um personagem que provoque a reflexão e que mantenha viva a memória das comunidades. “O que fazemos é desmitificar o papel do livro e da leitura na sociedade”, explica Juan Manuel Gutiérrez Jiménez, diretor da Comunidade Comelibros. “Acreditamos que as histórias nos ajudam a formar comunidades, a criar referências distintas na mente das pessoas. Isso nos dá a esperança de que estas comunidades tenham outras possibilidades de ser e construir relações humanas com base na palavra.”

Chegar a formar o programa de fomento de leitura em Puebla, segundo ele, foi o resultado de imensos debates a respeito do acesso aos bens culturais “apelando para a gratuidade como uma maneira de entendimento das relações humanas”.

Os antecedentes

Seu antecedente imediato foi a rede de livroclubes da Cidade de México durante a primeira década deste século 21. Nesta experiência, dois produtores culturais identificaram que a maior parte do público era formada por crianças. Esta interpretação foi combinada com o lançamento de um edital, Criação Latente, que oferecia 350.000 pesos a projetos realizados em zonas problemáticas da cidade de Puebla e que propiciassem processos na comunidade ao longo de seis meses. Invasión de niños comelibros foi um dos 10 projetos selecionados.

Uma vez aprovado, aqueles dois produtores, Jorge Mariano Mendoza e Joaquín Cruz Galicia, lançaram uma convocatória pública para promotores de leitura, com resultados surpreendentes de participação. Conseguiu-se então formar uma equipe de seis jovens para executar o projeto.

“O olhar de produtores locais, somado à experiência de política pública e gestão cultural, fez com que o projeto adquirisse dimensões sociais bastante favoráveis, convertendo-se em uma referência em temáticas como formação de públicos, gestão cultural comunitária, voluntariado e participação cidadã em nível local”, comenta Juan Manuel, também um produtor cultural e leitor em voz alta.

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Quando esse período de seis meses terminou, os iniciadores regressaram para a Cidade do México e a equipe de Puebla decidiu sustentar o projeto de maneira mais independente, mudando o esquema organizativo para outro “baseado nas noções de voluntariado cultural que forma parte dos processos, mais além do altruísmo”.

“Com o tempo, depois de quase seis anos de sustentar, modificar, avaliar, comprovar nossas metodologias, equivocar-nos e aprender com as crianças e a grande quantidade de companheiros que  formam parte deste sonho, temos muito presente que o acesso ao livro e os direitos que o circundam está intimamente relacionado com o que os projetos podem aportar na criação de políticas públicas”, afirma o diretor da organização.

“Não acreditamos que os livros devam ser exclusivamente objetos de culto, nem que devam estar resguardados em salas ou bibliotecas como peças decorativas. Nós acreditamos que o cuidado e o valor dos bens culturais ocorre quando as pessoas encontram significados neles. O valor dos livros não está nas proibições, e sim nas experiências que deixam no leitor específico. Para isso se encaminham nossas ações”, ele ressalta.

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As atividades

Os clubes do livro da Comunidade Comelibros estão instalados em algumas vizinhanças de Analco, do Alto e da Luz. Nesses três bairros de Puebla, com diversas expressões criativas (leitura, escrita, cinema, teatro, performance, música, oficinas), os “comelivros” convocam crianças, pais e vizinhos, tentando descobrir quais são os processos vitais, os imaginários, as surpresas que existem na comunidade reunida. Para eles, a leitura não se isola. É um processo vivo que se nutre, multiplica e transforma ao entrar em contato com outras propostas.

_MG_4936Os livros muitas vezes são um pretexto para contar mais historias, para dizer do que eles gostam ou o que lhes assusta. “Gostei muito que as crianças tenham nos contado as lendas ou histórias que conheciam do bairro. Algumas das lendas falavam sobre lugares representativos do bairro ou dos arredores”, comenta a produtora Diana em um dos boletins de leitura do site ninoscomelibros.wordpress.com, sobre suas atividades no bairro Alto em setembro de 2015.

Além de leituras em voz alta, empréstimo de livros, atividades de socialização e formação artística, a organização conta com projetos radiofônicos semanais como Voces y caminos (rádio pela internet) e Palabrotas en acción (cápsulas informativas ou com adaptações de literatura infantil enviadas a uma rede de contatos). Quase todas as atividades são gratuitas, exceto algumas oficinas dirigidas a crianças e adultos que se sustentam nas metodologias implementadas nos bairros, mas são consideradas serviços de apoio.

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“Estas oficinas são opções que oferecemos a outros públicos, que não pertencem aos bairros e têm capacidade econômica para pagá-los”, justifica Juan Manuel. “Um de nossos princípios tem sido a gratuidade no interior dos bairros, em nenhum momento solicitamos dinheiro para a realização de alguma atividade. Portanto, nos ocorreu que esses serviços pudessem ajudar a compensar, em parte, aos membros da comunidade que vêm adquirindo mais responsabilidades e dedicam mais tempo aos projetos”.

As oficinas para crianças têm a ver com o processo artístico, o cuidado com o meio ambiente, as artes e as histórias, enquanto os voltados para adultos enfocam a formação de públicos, o fomento da leitura, do voluntariado, da literatura infantil e metodologias sobre clube do livro infantil. São oficinas como “Artiliches” [Arte reciclada], “Ciência e cultura para a leitura” [Divulgação científica], “De letreos” [Criação narrativa], “Hartas artes” [Autoexploração da personalidade através da narração]. Os cursos para adultos, por sua vez, ganharam nomes como “Leitura em todas as partes” [Formação de promotores de leitura] e “Cultura Coletora” [Produção cultural e formação de públicos].

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Três perguntas para Juan Manuel Gutiérrez Jiménez

  1. Vocês são uma equipe interdisciplinar de produtores culturais. Quantos estão envolvidos mais diretamente no projeto atualmente?

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Juan Manuel é diretor da Comunidade Comelibros (Foto: Maria José Maya)

Em Comelibros gostamos de nomear o mundo que estamos construindo como um projeto que busca gerar organização social. Desde o ano passado decidimos que necessitávamos de um nome que representasse a todos e todas as envolvidas no processo comunitário. Por isso nos nomeamos ouriços. Escolhemos esta figura como uma representação que oscila entre a dor, a fragilidade e a resistência. Lembrando que como tais podemos ferir, mas necessitamos uns dos outros, apesar da dor que isso pode gerar.

Efetivamente, as convocatórias que realizamos foram favoráveis no sentido de que nosso esquema de produtor cultural não está determinado por tipo de estudos ou algo do gênero. O programa se desenvolve em três bairros da cidade de Puebla, com uma distribuição de 14 produtores (ouriços leitores), com dois coordenadoras, que cuidam do planejamento, da realização e da retroalimentação das atividades de leitura semanalmente. Em média estamos cobrindo umas 250 sessões de leitura ao longo do ano que implicam leituras em voz alta, conversas derivadas, empréstimo de livros, atividades de socialização e formação artística.

O projeto Palabrotas en acción está formado por um coordenador e uma equipe de oito pessoas que se encarregam da realização de roteiros e gravação de vozes. Depois (as cápsulas) são editadas e enviadas a projetos radiofônicos interessados, com periodicidade semanal. Voces y caminos é outro projeto radiofônico posto em marcha pela internet. Dele participam quatro companheiros, todas as quintas-feiras, pela Lobo Radio.

 

  1.  Imagino que vocês tenham dificuldades, que as condições não sejam as ideais. Mesmo assim, tem valido a pena? Já podem ver os resultados do trabalho nas comunidades?

Dificuldades, temos passado por todas. Só para enumerar algumas: não contamos com um espaço fixo para operar ou resguardar materiais; temos que resolver a aquisição de materiais para realizar as atividades; as vizinhanças onde trabalhamos não têm as condições ideais de espaço como poderia ser uma sala de leitura ou ludoteca, estamos à mercê das pessoas que passam; dificuldades em mobilidade, traslado; não contamos com equipamento para montar concertos e/ou festivais… Enfim, carências podemos enunciar muitas, mas para todas elas temos encontrado formas de solucioná-las, com apoio solidário, doações, gestões, com um manejo administrativo muito cuidadoso de nossos recursos financeiros e materiais, com transparência e amabilidade para as pessoas, com propostas e espaço para iniciativas; com muita atenção para dentro do grupo, isso é em parte o que nos tem ajudado.

Tem valido a pena, completamente, contar com leitoras em voz alta nos bairros que há um par de anos eram parte dos grupos onde trabalhamos e agora se assumem como produtoras em sua comunidade. Também não tem preço ver crianças com formação autodidata que pensam e decidem, crianças que se defendem com palavras no momento adequado antes de ir aos tapas. Vale muito a pena passar pelos bairros e encontrar crianças e vizinhos que cumprimentam de outro modo. Ver um menino ou menina estabelecendo as regras de convivência com adultos e se encarregando de fazê-las valer é uma conquista também. E dentro do grupo, como companheiros, temos crescido e amadurecido junto com o projeto. Ainda que alguns tenham trilhado novos caminhos, a Comunidade Comelibros é parte de suas referências.

 

 

  1. Comunidade Comelibros é uma das 14 organizações da plataforma CVC México. Por que decidiram fazer parte da rede? Que esperam dela?

Basicamente porque parece que as organizações no México necessitam articular de outro modo, já não com manifestações como historicamente se fazia. Outro elemento é a afinidade política com a Cultura Viva Comunitária. Sentimos que compartilhamos os fundamentos entre as 14 organizações que até o momento formam a plataforma no México.

Como membros da rede, a curto prazo nos interessam dois temas: comunicação e visibilidade. No México, nesta fase, começar com uma rede como é Cultura Viva Comunitária implica resistir a processos de incerteza econômica, com bastante adversidades. Neste sentido, acreditamos que o primordial é gerar um companheirismo entre os distintos estados que participam da plataforma e ir construindo ações conjuntas muito concretas.

Por outra parte, quando falamos de visibilizar não nos referimos às conquistas de um projeto em si, e sim aos fundamentos, problemáticas e propostas que nos vêm ocorrendo para mudar a fundo a realidade em nosso país. Vemos como uma conquista muito importante que a sociedade se veja em espelhos mais amáveis que apenas o terror, o medo e o automatismo.

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Saiba mais:

https://ninoscomelibros.wordpress.com/

www.facebook.com/comunidadcomelibros

 

(* Texto publicado em 22 de fevereiro de 2016)