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Experiências

Juliano Basso e  a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontrosJuliano Basso e  a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontrosJuliano Basso e  a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontrosJuliano Basso e  a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontrosJuliano Basso e  a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontrosJuliano Basso e  a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontros

Por IberCultura Viva

Em25, Feb 2016 | Em | PorIberCultura Viva

Juliano Basso e a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge: uma história de encontros

“O povo tem de fazer mais terapia de roça, sabe? Ir pro mato, pegar uma enxada, plantar uma horta, ver as plantas nascerem, ver outro tipo de resultado. Senão é só trabalho, dinheiro, supermercado, shopping. A vida fica frustrante.” É assim, acreditando na sabedoria dos povos tradicionais, que vivem há tanto tempo em sintonia com a natureza, que Juliano George Basso pensa no futuro. “Nossos professores de tecnologia são os povos tradicionais, é com eles que a gente deve reaprender como fazer. A cidade ficou inchada, as pessoas estão muito frustradas. É preciso reconectar para cá, puxar para o rural, repensar o modelo de cidade.”

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Juliano chegou a São Jorge em 1996 (Foto: Oliver Kornblihtt)

Faz 20 anos que Juliano saiu de Goiânia para morar na Vila de São Jorge, povoado com 600 habitantes a 35km de Alto Paraíso (GO), na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. “Quando cheguei a São Jorge me surpreendi com a riqueza cultural das comunidades da região e, também influenciado pelas minhas experiências de viagem no Brasil e por outros países, senti a necessidade de criar um espaço democrático para as manifestações da cultura popular tradicional”, conta. E foi de forma colaborativa com a comunidade que ele criou ali, em 1997, a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, e em 2001 começou a realizar o Encontro de Culturas, que aos poucos foi se transformando em uma conferência de saberes.

“Fomos guiados pela vontade de fazer com que comunidades nunca antes ouvidas pelo poder público pudessem erguer a voz e mostrar toda sua sabedoria. Foram os povos indígenas, quilombolas, mestres, brincantes, catireiros, violeiros, artistas e todos os representantes da riqueza do patrimônio cultural imaterial produzido nos interiores do Brasil que fizeram esse chamado”, afirma.

Roda de conversa na Casa de Cultura durante o Encontro de Culturas de 2015. Foto: Leonil Junior

Roda de conversa no “Cavaleiro” durante o Encontro de Culturas (Foto: Leonil JR)

“Cavaleiro”, o Ponto de Cultura

A Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge nasceu em meio ao cerrado (e terra e poeira e pedra) como um projeto audacioso, concretizado em paredes de pedra toá, típica da região. O espaço, conhecido pelos moradores da vila como “o Cavaleiro”, é Ponto de Cultura desde 2005 e abriga desde 2001 o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. São 15 anos de espetáculos que unem música, dança e fé, refletindo as diversas manifestações da cultura popular tradicional do Brasil.

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(Fotos: Bernardo Guerreiro)

 

Mais de 300 grupos e artistas do país já participaram do evento – da Folia do Divino de Crixás (ES) ao Lundu de Lezeira (PI), do Maracatu Leão Coroado (PB) às Meninas de Sinhá (MG). A prioridade, no entanto, é para os grupos e manifestações da Chapada: a catira e a curraleira dos foliões de São João da Aliança; a sussa dos Kalungas do Vão do Moleque e do Vão das Almas; o lundu e o batuque da Caçada da Rainha, festa tradicional da cidade de Colinas do Sul; a congada da comunidade de Niquelândia, com seus penachos inspirados nos índios Avá-canoeiro.

Nos últimos anos, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros vem abrindo espaço não só para as manifestações de música, dança, teatro e artes plásticas, mas também para o debate sobre políticas públicas para as culturas tradicionais e sobre resistência, economia da cultura e sustentabilidade, além da valorização da gastronomia do cerrado.

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Reunião da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura durante o XV Encontro de Culturas, em julho de 2015. (Foto: Bernardo Guerreiro)

Oficinas, encontros e rodas de prosa

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A Feira de Experiências (Foto: Bernardo Guerreiro)

Entre as iniciativas realizadas durante o Encontro de Culturas estão as rodas de prosa – que têm como objetivo a troca de experiências, histórias de vida, práticas e tradições culturais –, a Feira de Experiências Sustentáveis do Cerrado (uma parceria com o Sebrae para divulgar a produção artesanal das comunidades da região) e diversas oficinas (bordados, buriti, afoxé, cerâmica, brinquedos, maquetes de papelão, cerveja artesanal e construção de rabeca são algumas delas).

Também há o Encontro de Capoeira Angola, já no sétimo ano, e o Encontro de Lideranças Quilombolas de Goiás, que já teve três edições com a proposta de promover a integração entre os líderes das diversas comunidades, para que discutam políticas públicas voltadas aos povos tradicionais. A Fundação Palmares reconhece 22 comunidades quilombolas no estado, sendo a maior delas a dos Kalungas.

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IX Aldeia Multiétnica, em julho de 2015 (Foto: Oliver Kornblihtt)

Aldeia Multiétnica: vivência como modo de ação

Uma das principais ações do Encontro de Culturas, a Aldeia Multiétnica surgiu em 2007 como uma forma de colocar o público em contato direto com os costumes, tradições e modos de vida dos povos indígenas. Trata-se de um espaço de integração, onde são realizadas rodas de prosa, oficinas de artesanato, pinturas corporais, exposições fotográficas e exibições de vídeos produzidos pelos índios. Ali entram em debate questões relacionadas a território, à participação dos índios no ambiente urbano, ao patrimônio estético e cultural dos povos, suas reminiscências na cultura popular e a educação especializada.

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(Foto: Oliver Kornblihtt)

Em 2011, o projeto ganhou outro formato com a construção de uma aldeia às margens do Rio São Miguel. A ideia é que cada povo tenha uma casa temporária no local, formando de fato uma aldeia multiétnica. O novo modelo começou com os Yawalapiti, que construíram uma oca xinguana com a ajuda da comunidade Kalunga. Em 2012, foi a vez da etnia Kayapó, e em 2013, da Krahô. Em 2014, os índios Fulni-ô construíram a quarta moradia na aldeia e receberam representantes dos povos Krahô, Kayapó, Yawalapiti, Fulni-ô, Xavante, Kariri-Xocó, Kaxinawá, Trucá e Wará.

Encontroteca, o museu digital

Em 2010/2011, a Casa de Cultura obteve recursos do Programa Goyazes, do Governo do Estado de Goiás, para implementar o Projeto Encontroteca: um Museu Digital. O objetivo era reunir a memória dos 10 anos do Encontro de Culturas. Um material extenso: 363 horas de vídeos, mais de 25 mil fotos, 18 horas de áudio com entrevistas e músicas, e 401 notícias, entre pesquisas, entrevistas e artigos sobre mais de 140 grupos de cultura tradicional goiana e de outras regiões do Brasil.

encontroteca1Concebida como um museu digital, a Encontroteca surgiu para conectar em redes os grupos de cultura tradicionais espalhados pelo país, disponibilizar conteúdos com foco na preservação da memória e consolidar um mapa georreferenciado desses grupos, oferecendo informações como local, ano de fundação, data da festa local, endereço da sede, representante, telefone e e-mail para contato.

A primeira etapa do projeto resultou na construção da plataforma digital (www.encontrodeculturas.com.br/encontroteca) e na organização do material produzido ao longo dos 10 anos do Encontro de Culturas: pesquisa, catalogação e edição de fotos, textos e áudios, decupagem de vídeos, criação do banco de dados, inserção do conteúdo produzido e editado na plataforma digital e produção de um DVD.

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Peña folclórica, espetáculo da Turma que Faz apresentado ao longo do ano na Casa de Cultura. (Foto: Juliana Nallini)

Todos Nós e Turma Que Faz

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Oficina de cenotécnico do projeto Todos Nós. (Foto: Juliana Nallini)

O trabalho social com crianças e jovens da região se dá por meio do projeto Turma Que Faz, coordenado pela artista popular Doroty Marques, em parceria com a Casa de Cultura desde 2003. São atividades educativas, artísticas, culturais, esportivas e ambientais que buscam desenvolver o capital humano a partir de experiências que promovam a autoestima, a comunicação, a convivência familiar e comunitária, o reconhecimento do contexto em que vivem e a consciência ecológica e patrimonial. O projeto formou jovens artistas que tocam, dançam, fazem acrobacias em tecido e pintam. Tudo isso pode ser visto no espetáculo Peña folclórica, que estreou em 2015 e realiza apresentações durante o ano todo na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge.

Em 2015, também foi lançado o projeto Todos Nós, voltado para a capacitação de potenciais agitadores culturais locais no desenvolvimento de projetos de gestão e produção cultural. A iniciativa veio com a chegada do asfalto à via de acesso da Vila de São Jorge e o consequente aumento do fluxo de turistas na região. Oito oficinas de capacitação foram lançadas, divididas em três módulos: gerencial, técnico e artístico. As duas últimas estão previstas para o primeiro semestre de 2016.

Integração com a América Latina

O tema do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, na segunda quinzena de julho de 2016, será “Integração dos povos tradicionais das Américas”. “Ainda não fechamos a programação, mas queremos convidar grupos de cultura tradicional da América Latina para que possam apresentar sua cultura, seus costumes e tradições no Brasil por meio do evento”, adianta o idealizador do encontro, que foi eleito pelos moradores presidente da Associação Comunitária da Vila de São Jorge de 2006 a 2008.

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O grupo mexicano Venado Azul foi uma das atrações da 15ª edição do encontro (Foto: Bernardo Guerreiro)

Ex-aluno de filosofia e história da Universidade Federal de Goiás (UFG) e de artes plásticas na Universidade de Brasília (UnB), Juliano Basso diz que encara como sua missão, assim como a da Casa de Cultura, proporcionar encontros que valorizem a sociobiodiversidade, possibilitando a troca de saberes e fazeres. “Chegamos a um nível de comprometimento que não temos mais como esquecer a responsabilidade. Ela já faz parte da minha história. E com isso quero continuar dando voz aos povos esquecidos, pouco ouvidos, negligenciados pelo poder público e por uma sociedade cada vez mais consumista e egoísta”, destaca.

“Dessa forma, seguimos no caminho para minimizar cada vez mais os preconceitos e contribuir para o fortalecimento das expressões da diversidade cultural e de um mundo mais igualitário. E mesmo com as dificuldades de incentivo e patrocínios, sempre encontramos bons parceiros que compartilham os mesmos ideais que nós. Há muita gente no Brasil que quer um país melhor e vamos nos encontrando e nos juntando para criar esse cenário.”

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(Foto: Bernardo Guerreiro)

O poder da arte e da alegria

Para ele, a cultura de ódio que avança pelo país é resultado do excesso de frustração das pessoas. “Elas querem se rebelar contra alguma coisa, e se rebelam contra o governo, o vizinho, o negro, o mais pobre. Por isso acho que a gente deve aprender com os povos tradicionais, com a alegria que eles mantêm, com a crença que eles têm nas crianças e no futuro, a humildade, a tolerância maior com o próximo, o saber que cada um tem seu espaço para errar e acertar.”

Juliano acredita nas “outras potências do ser humano”, na potência da alegria, no poder transformador da arte. “A arte nos conecta à alegria, à harmonia invisível de todas as coisas”, afirma, ressaltando a mística do povo brasileiro, tanto do ponto de vista religioso – dos evangélicos aos povos dos terreiros – como das folias, da cultura popular. “É preciso alimentar isso, mas sem intolerância. Porque intolerância causa ódio, e ódio não faz bem a ninguém. E porque estamos falando da mesma coisa, de se conectar com o criador, com a natureza, com as coisas belas da vida, com o amor ao próximo… Quem é o próximo? Somos nós também.”

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Cenas do XV Encontro de Culturas Tradicionais (Fotos: Oliver Kornblihtt)

 Leia também:

Doroty Marques e a Turma que Faz: caminhando juntos por um mundo melhor

Saiba mais:

www.encontrodeculturas.com.br

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