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Experiências

Altepee: a música de cordas como ponte entre realidades comuns e miradas diversasAltepee: a música de cordas como ponte entre realidades comuns e miradas diversasAltepee: a música de cordas como ponte entre realidades comuns e miradas diversas

Por IberCultura Viva

Em20, May 2016 | Em | PorIberCultura Viva

Altepee: a música de cordas como ponte entre realidades comuns e miradas diversas

altepee-4No princípio, o que fazia com que um grupo de jovens de Veracruz, México, se juntasse em torno de suas jaranas (instrumento de corda parecido com um violão) era a amizade e o gosto por tocar. Pouco a pouco eles foram se dando conta de que a tradição do fandango (festa que reúne músicos e sapateadores ao redor da tarima) era uma forma natural de se organizar, que os aproximava das comunidades e do conhecimento de seus avós. Nascia então o Colectivo Altepee Son.

O músico Sael Blanco, um dos fundadores, conta que a maioria dos que iniciaram o coletivo há sete anos se conheceu na universidade e por causa dos huapangos (fandangos), as festas onde tocam esta música de cordas oriunda dos povos originários. “Todos somos de comunidades do sul de nosso estado, que é rico em biodiversidade e assuntos culturais, mas também é um dos que recebem menos atenção por parte do Estado e onde há alguns anos começou a surgir uma violência perpetuada pelo crime organizado”, afirma.

Ao ver e viver tudo isso em suas comunidades, Sael e os amigos decidiram fazer algo por meio da música. “Tivemos que deixar a universidade e passamos a trabalhar com a música, que nesses momentos te cura do temor que te imobiliza. Começamos a nos dar conta de que, por medo, pouco a pouco as pessoas deixavam de falar ou de sair de suas casas, os jovens viam como melhor opção entrar para o crime organizado que para outro tipo de trabalho (também escasso)”, comenta.

Encontro de gerações

altepee-13A música de cordas do sul de Veracruz, que ao longo de 300 anos vem sendo transmitida de geração em geração, tem sido uma importante ferramenta de unificação social para o Altepee, já que permite a interação entre gerações – os jovens interessados em aprender a música e os mais velhos, que vêm sabendo conservá-la, e dos quais aprendem também uma série de valores e aptidões que lhes permitem se aproximar de sua identidade, conhecê-la e defendê-la.

“Nos pareceu necessário começar a ocupar diferentes ferramentas para poder preservar esse conhecimento há muito desvalorizado e que, por nossa experiência de vida, entendíamos que nos faz falta. Assim, começamos a documentar em vídeo e áudio, o que depois serviu para que mais companheiros que chegavam às oficinas pudessem se integrar ao trabalho do coletivo”, diz Sael.

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Além de contar com uma “disquera” que lhes permite gravar os músicos das comunidades, os integrantes de Altepee fazem um programa de rádio todas as quartas-feiras, oferecem uma pequena oficina de serigrafia e outra de artesanato. Também têm uma produção de jaranas, sabões artesanais, medicina natural e chocolates, vendidos em uma lojinha administrada por eles mesmos. Alguns companheiros se dedicam à agricultura. “Na realidade, a documentação é uma forma de levar a mais pessoas uma visão diferente de vida, que possa ser mais equilibrada com a natureza, entendendo que nós somos parte dela, que, como mostram nossos avós, é parte de nossa identidade.”

 

Construindo sonhos

No começo eram cinco pessoas. Agora são 20, com o respaldo de muitas comunidades, o que lhes permite seguir sonhando e construindo esses sonhos. “Dia a dia vamos vendo os resultados de nosso trabalho. Estamos vivos, seguimos trabalhando e nosso trabalho permite que outros possam também sonhar”, ressalta.

“E nesta ideia de sonhar e seguir fazendo, nos damos conta de que é importante cada experiência assim, pois ainda que nós e muitos mais estejamos trabalhando nessa mudança de nossas más realidades, enquanto o mundo seguir por esse caminho que leva ao abismo, a destruição, todas essas experiências de vida estão em risco. Daí a importância de se juntar, conhecer e construir em rede. Ainda que isso seja bastante difícil, ainda mais num país como o nosso, que é bastante grande em território e bem diferente.”

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O movimento de CVC

altepee-3Altepee é uma das 14 organizações que fazem parte da plataforma Cultura Viva Comunitária México, criada em 2015. Sael conta que no começo da história do coletivo eles fizeram uma viagem a Guatemala, onde conheceram os companheiros de Caja Lúdica. Depois, convidado para participar de um evento chamado Juntos, soube da existência do movimento de Cultura Viva Comunitária e do trabalho feito pela Red Maraca. “Me pareceu bastante boa a forma de trabalhar a rede, experiência que no México não conhecia. Me pareceu interessante a forma tão fraternal com que as organizações se vêm e o trabalho com alegria, que é algo muito importante, também compartilhado pelo coletivo”.

Segundo ele, isso trouxe o interesse para que no México se conhecesse e construísse esse espaço de diálogo e construção, não apenas com as pessoas do país, mas com todos os mesoamericanos. A primeira reunião com vistas à criação de uma rede de CVC no México se deu em fevereiro de 2014. Em outubro de 2015, depois de muita busca e diálogo, as 14 organizações finalmente criaram a plataforma Cultura Viva Comunitária México.

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Em março passado, elas participaram do III Encontro de Cultura Viva Comunitária México, organizado pelo Colectivo Altepee no município de Acayucan, Veracruz. Durante cinco dias, as companheiros e os companheiros que chegaram ao encontro puderam compartilhar suas metodologias com outros coletivos e depois colocá-los em prática na comunidade, deixando  várias iniciativas já em ação.

Pelas características da região e o momento político, ao coletivo parecia importante que o encontro em Acayucan se construísse com o que – e com quem – contavam. “Isso também é uma maneira de mostrar como trabalhamos, que permite nos conhecer melhor”, comenta Sael. “Para nós é muito importante que os recursos monetários não sejam uma barreira para que possamos nos juntar e nos conhecer”.

Saiba mais:

http://colectivoaltepee.blogspot.com.br

https://altepee.bandcamp.com

www.facebook.com/altepees

Coletivo Cultural Polanco: os sonhos e esforços de um grupo de amigos para transformar a realidade do bairroColetivo Cultural Polanco: os sonhos e esforços de um grupo de amigos para transformar a realidade do bairroColetivo Cultural Polanco: os sonhos e esforços de um grupo de amigos para transformar a realidade do bairroColetivo Cultural Polanco: os sonhos e esforços de um grupo de amigos para transformar a realidade do bairroColetivo Cultural Polanco: os sonhos e esforços de um grupo de amigos para transformar a realidade do bairro

Por IberCultura Viva

Em04, Apr 2016 | Em | PorIberCultura Viva

Coletivo Cultural Polanco: os sonhos e esforços de um grupo de amigos para transformar a realidade do bairro

A Colônia Lomas de Polanco existe desde 1960. Com aproximadamente 20 mil habitantes, em sua maioria operários e comerciantes independentes, é um bairro da cidade de Guadalajara, México, que tem problemas novos e antigos. Entre eles, inundações fortes nas ruas, que em tempo de chuvas asfixiam as vias, falta de escrituras ou situação legal das casas, roubos e narcotráfico. Com vistas a reconstruir o tecido social e o bem-estar dos habitantes, um grupo de voluntários ali desenvolve atividades culturais, artísticas, formativas e informativas desde 2007.

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Norberto, o fundador do grupo, com as crianças do bairro

“Quando acabaram com um projeto que os jesuítas tinham com os jovens, alguns deles formaram um primeiro coletivo nos anos 90, já independentes da paróquia da colônia. Em 2007, depois de umas eleições fraudulentas no meu país e com vontade de fazer algo para transformar a realidade, convidei vários amigos para formar o atual Coletivo Cultural Polanco”, conta Norberto Villaseñor Montes, o fundador do grupo, que já havia tido experiência de trabalho voluntário nas comunidades eclesiais de base (Cebs) da região.

Integrado por um ativista cultural, dois obreiros, uma socióloga, um psicólogo, uma professora de educação especial, duas donas de casa e uma licenciada em artes visuais, o coletivo produz um festival artístico uma vez por mês, com artistas da colônia e da cidade. “Aqui se apresenta todo tipo de arte e de gênero, desde que não promovam antivalores”, afirma Norberto, destacando também que o Coletivo Cultural Polanco é plural e sua conformação de integrantes é “com base no que contrapesa o serviço à comunidade a partir de suas habilidades ou inabilidades”.

IMG_7947No festival, além dos artistas, são convidados especialistas em temas como  proteção do meio ambiente, direitos humanos e alternativas de consumo, para que dialoguem com o público que assiste ao evento, algo em torno de 100 e 200 pessoas. Também são elaborados um jornal mural e um boletim informativo com o tema de cada festival, os quais são expostos e distribuídos no dia do evento. “Estes são participativos e estão abertos para que as pessoas construam conosco com diversos aportes, como poemas, análise e ilustrações”, comenta Norberto. Ocasionalmente, outras organizações ou pessoas interessadas participam com mesas de livros e artesanato.

As atividades são autogestionadas e ocorrem no Parque Roberto Montenegro, também conhecido como “o parque de Lomas de Polanco”. O espaço, que abarca sete quadras pequenas por uma de largura, é o centro de convivência e recreação não apenas dos habitantes de Polanco, mas também de pessoas de outras colônias que não contam com um lugar assim. “Muitas crianças o visitam diariamente, os adolescentes e jovens têm o parque como um lugar de convivência e os adultos passam horas conversando ali”, diz Norberto. “No entanto, é cada vez maior a presença de viciados em drogas e grupos de jovens que perambulam sem fazer nada. (…) O parque é o espaço verde de todos, mas é também um espaço onde muita gente joga lixo. Percebemos que não o valorizam o suficiente.”

Para ele, o impacto do trabalho do Coletivo Polanco no parque é evidenciado pela presença do público, os comentários positivos, a participação cada vez mais ativa de artistas do bairro e de outras partes da cidade, o reconhecimento da associação de vizinhos da colônia, do padre da comunidade e de outras lideranças locais. “E um público que em geral nos quer bem e nos apoia cada vez mais, dizendo isso pessoalmente, o que nos enche de ânimo para continuar”, complementa.

Uma fortaleza do coletivo, segundo Norberto, vem do fato de eles terem criado um pequeno mas eficaz método de organização, baseado em que as decisões devem ser tomadas em consenso, debatidas e respeitadas pela maioria de seus membros. “Damos prioridade ao trabalho de análise e à realização das atividades em coletivo ou em comissões e, por último, fazemos uma avaliação que nos ajuda a definir o que continuar, melhorar ou jogar fora para profissionalizar nosso trabalho”, explica.

DSCF0520Para aumentar a oferta cultural e profissionalizar as ações existentes, a ideia é que cada um se especialize ainda mais num processo ou parte das atividades: coordenação, área de comunicação ou artística, produção, vinculação, desenho e divulgação. O grupo também sonha ter uma casa cultural de vizinhos e poder oferecer oficinas permanentes “que formem as pessoas em arte, integração e ação cidadã”. A preferência seria pela população de 5 a 15 anos, uma etapa da vida em que as oficinas se constituiriam um agente determinante em sua formação individual e social.

Um dos grandes obstáculos para fortalecer o projeto do coletivo tem sido a situação econômica, já que neste momento eles não recebem financiamento de nenhum tipo. Ainda assim, sentem-se “preparados e motivados”, com vínculos fortes com os artistas e aqueles que ministram as oficinas, e com a consciência do quão necessário e importante são as ações na colônia. “Os anos de voluntariado têm sido muito satisfatórios”, garante Norberto. “Iniciamos com muitas dificuldades, mas aos poucos as pessoas vêm nos reconhecendo e estamos com a ideia de que participem mais ativamente em nosso trabalho comunitário”.

DSCF0306O Coletivo Cultural Polanco é um dos membros fundadores da plataforma Cultura Viva Comunitária México, criada em 2015. “Fomos sede em nossa colônia do segundo encontro regional, e consideramos que esta representa a forma de entender a cultura como nós também a entendemos: a partir da realidade concreta de nossa comunidade e ponderando a participação dos habitantes em ações que beneficiem seu entorno.”

É assim, concretizando alianças efetivas com as pessoas do bairro e as organizações culturais e comunitárias que trabalham na cidade, que os amigos de Polanco pretendem seguir fomentando a economia solidária, os foros públicos, os valores da solidariedade, do respeito e da igualdade, e sua longa lista de sonhos.

 

Saiba mais:

https://www.facebook.com/Colectivo-Cultural-Polanco-355469754634933/

Comunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leituraComunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leituraComunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leituraComunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leituraComunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leituraComunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leitura

Por IberCultura Viva

Em22, Feb 2016 | Em | PorIberCultura Viva

Comunidad Comelibros: a rede de clubes do livro que busca fomentar o prazer da leitura

Fotos: Dana Albicker

Lembra o livro que o fez querer ser um explorador de planetas remotos? Ou o conto que o fez ficar amigo do monstro que vive embaixo da cama? Ou o primeiro poema em que reconheceu o amor? Os “comelivros” avisam: se respondeu “sim” a qualquer uma destas perguntas, você também é um deles. E para ajudar que mais meninos e meninas o sejam, a Comunidade Comelibros vem instalando uma rede de clubes do livro em bairros antigos da cidade de Puebla, no México. Cada clube conta com um acervo especializado em literatura infantil e busca criar espaços para o intercâmbio de conhecimento, propiciando a participação de vizinhos nas atividades comunitárias e criando novos sentidos de pertencimento.

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Pensando na leitura como um ato poderoso, revelador e sobretudo prazeroso, o projeto tem como objetivo fazer do livro um personagem cotidiano e necessário na vida das pessoas. Um personagem que provoque a reflexão e que mantenha viva a memória das comunidades. “O que fazemos é desmitificar o papel do livro e da leitura na sociedade”, explica Juan Manuel Gutiérrez Jiménez, diretor da Comunidade Comelibros. “Acreditamos que as histórias nos ajudam a formar comunidades, a criar referências distintas na mente das pessoas. Isso nos dá a esperança de que estas comunidades tenham outras possibilidades de ser e construir relações humanas com base na palavra.”

Chegar a formar o programa de fomento de leitura em Puebla, segundo ele, foi o resultado de imensos debates a respeito do acesso aos bens culturais “apelando para a gratuidade como uma maneira de entendimento das relações humanas”.

Os antecedentes

Seu antecedente imediato foi a rede de livroclubes da Cidade de México durante a primeira década deste século 21. Nesta experiência, dois produtores culturais identificaram que a maior parte do público era formada por crianças. Esta interpretação foi combinada com o lançamento de um edital, Criação Latente, que oferecia 350.000 pesos a projetos realizados em zonas problemáticas da cidade de Puebla e que propiciassem processos na comunidade ao longo de seis meses. Invasión de niños comelibros foi um dos 10 projetos selecionados.

Uma vez aprovado, aqueles dois produtores, Jorge Mariano Mendoza e Joaquín Cruz Galicia, lançaram uma convocatória pública para promotores de leitura, com resultados surpreendentes de participação. Conseguiu-se então formar uma equipe de seis jovens para executar o projeto.

“O olhar de produtores locais, somado à experiência de política pública e gestão cultural, fez com que o projeto adquirisse dimensões sociais bastante favoráveis, convertendo-se em uma referência em temáticas como formação de públicos, gestão cultural comunitária, voluntariado e participação cidadã em nível local”, comenta Juan Manuel, também um produtor cultural e leitor em voz alta.

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Quando esse período de seis meses terminou, os iniciadores regressaram para a Cidade do México e a equipe de Puebla decidiu sustentar o projeto de maneira mais independente, mudando o esquema organizativo para outro “baseado nas noções de voluntariado cultural que forma parte dos processos, mais além do altruísmo”.

“Com o tempo, depois de quase seis anos de sustentar, modificar, avaliar, comprovar nossas metodologias, equivocar-nos e aprender com as crianças e a grande quantidade de companheiros que  formam parte deste sonho, temos muito presente que o acesso ao livro e os direitos que o circundam está intimamente relacionado com o que os projetos podem aportar na criação de políticas públicas”, afirma o diretor da organização.

“Não acreditamos que os livros devam ser exclusivamente objetos de culto, nem que devam estar resguardados em salas ou bibliotecas como peças decorativas. Nós acreditamos que o cuidado e o valor dos bens culturais ocorre quando as pessoas encontram significados neles. O valor dos livros não está nas proibições, e sim nas experiências que deixam no leitor específico. Para isso se encaminham nossas ações”, ele ressalta.

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As atividades

Os clubes do livro da Comunidade Comelibros estão instalados em algumas vizinhanças de Analco, do Alto e da Luz. Nesses três bairros de Puebla, com diversas expressões criativas (leitura, escrita, cinema, teatro, performance, música, oficinas), os “comelivros” convocam crianças, pais e vizinhos, tentando descobrir quais são os processos vitais, os imaginários, as surpresas que existem na comunidade reunida. Para eles, a leitura não se isola. É um processo vivo que se nutre, multiplica e transforma ao entrar em contato com outras propostas.

_MG_4936Os livros muitas vezes são um pretexto para contar mais historias, para dizer do que eles gostam ou o que lhes assusta. “Gostei muito que as crianças tenham nos contado as lendas ou histórias que conheciam do bairro. Algumas das lendas falavam sobre lugares representativos do bairro ou dos arredores”, comenta a produtora Diana em um dos boletins de leitura do site ninoscomelibros.wordpress.com, sobre suas atividades no bairro Alto em setembro de 2015.

Além de leituras em voz alta, empréstimo de livros, atividades de socialização e formação artística, a organização conta com projetos radiofônicos semanais como Voces y caminos (rádio pela internet) e Palabrotas en acción (cápsulas informativas ou com adaptações de literatura infantil enviadas a uma rede de contatos). Quase todas as atividades são gratuitas, exceto algumas oficinas dirigidas a crianças e adultos que se sustentam nas metodologias implementadas nos bairros, mas são consideradas serviços de apoio.

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“Estas oficinas são opções que oferecemos a outros públicos, que não pertencem aos bairros e têm capacidade econômica para pagá-los”, justifica Juan Manuel. “Um de nossos princípios tem sido a gratuidade no interior dos bairros, em nenhum momento solicitamos dinheiro para a realização de alguma atividade. Portanto, nos ocorreu que esses serviços pudessem ajudar a compensar, em parte, aos membros da comunidade que vêm adquirindo mais responsabilidades e dedicam mais tempo aos projetos”.

As oficinas para crianças têm a ver com o processo artístico, o cuidado com o meio ambiente, as artes e as histórias, enquanto os voltados para adultos enfocam a formação de públicos, o fomento da leitura, do voluntariado, da literatura infantil e metodologias sobre clube do livro infantil. São oficinas como “Artiliches” [Arte reciclada], “Ciência e cultura para a leitura” [Divulgação científica], “De letreos” [Criação narrativa], “Hartas artes” [Autoexploração da personalidade através da narração]. Os cursos para adultos, por sua vez, ganharam nomes como “Leitura em todas as partes” [Formação de promotores de leitura] e “Cultura Coletora” [Produção cultural e formação de públicos].

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Três perguntas para Juan Manuel Gutiérrez Jiménez

  1. Vocês são uma equipe interdisciplinar de produtores culturais. Quantos estão envolvidos mais diretamente no projeto atualmente?

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Juan Manuel é diretor da Comunidade Comelibros (Foto: Maria José Maya)

Em Comelibros gostamos de nomear o mundo que estamos construindo como um projeto que busca gerar organização social. Desde o ano passado decidimos que necessitávamos de um nome que representasse a todos e todas as envolvidas no processo comunitário. Por isso nos nomeamos ouriços. Escolhemos esta figura como uma representação que oscila entre a dor, a fragilidade e a resistência. Lembrando que como tais podemos ferir, mas necessitamos uns dos outros, apesar da dor que isso pode gerar.

Efetivamente, as convocatórias que realizamos foram favoráveis no sentido de que nosso esquema de produtor cultural não está determinado por tipo de estudos ou algo do gênero. O programa se desenvolve em três bairros da cidade de Puebla, com uma distribuição de 14 produtores (ouriços leitores), com dois coordenadoras, que cuidam do planejamento, da realização e da retroalimentação das atividades de leitura semanalmente. Em média estamos cobrindo umas 250 sessões de leitura ao longo do ano que implicam leituras em voz alta, conversas derivadas, empréstimo de livros, atividades de socialização e formação artística.

O projeto Palabrotas en acción está formado por um coordenador e uma equipe de oito pessoas que se encarregam da realização de roteiros e gravação de vozes. Depois (as cápsulas) são editadas e enviadas a projetos radiofônicos interessados, com periodicidade semanal. Voces y caminos é outro projeto radiofônico posto em marcha pela internet. Dele participam quatro companheiros, todas as quintas-feiras, pela Lobo Radio.

 

  1.  Imagino que vocês tenham dificuldades, que as condições não sejam as ideais. Mesmo assim, tem valido a pena? Já podem ver os resultados do trabalho nas comunidades?

Dificuldades, temos passado por todas. Só para enumerar algumas: não contamos com um espaço fixo para operar ou resguardar materiais; temos que resolver a aquisição de materiais para realizar as atividades; as vizinhanças onde trabalhamos não têm as condições ideais de espaço como poderia ser uma sala de leitura ou ludoteca, estamos à mercê das pessoas que passam; dificuldades em mobilidade, traslado; não contamos com equipamento para montar concertos e/ou festivais… Enfim, carências podemos enunciar muitas, mas para todas elas temos encontrado formas de solucioná-las, com apoio solidário, doações, gestões, com um manejo administrativo muito cuidadoso de nossos recursos financeiros e materiais, com transparência e amabilidade para as pessoas, com propostas e espaço para iniciativas; com muita atenção para dentro do grupo, isso é em parte o que nos tem ajudado.

Tem valido a pena, completamente, contar com leitoras em voz alta nos bairros que há um par de anos eram parte dos grupos onde trabalhamos e agora se assumem como produtoras em sua comunidade. Também não tem preço ver crianças com formação autodidata que pensam e decidem, crianças que se defendem com palavras no momento adequado antes de ir aos tapas. Vale muito a pena passar pelos bairros e encontrar crianças e vizinhos que cumprimentam de outro modo. Ver um menino ou menina estabelecendo as regras de convivência com adultos e se encarregando de fazê-las valer é uma conquista também. E dentro do grupo, como companheiros, temos crescido e amadurecido junto com o projeto. Ainda que alguns tenham trilhado novos caminhos, a Comunidade Comelibros é parte de suas referências.

 

 

  1. Comunidade Comelibros é uma das 14 organizações da plataforma CVC México. Por que decidiram fazer parte da rede? Que esperam dela?

Basicamente porque parece que as organizações no México necessitam articular de outro modo, já não com manifestações como historicamente se fazia. Outro elemento é a afinidade política com a Cultura Viva Comunitária. Sentimos que compartilhamos os fundamentos entre as 14 organizações que até o momento formam a plataforma no México.

Como membros da rede, a curto prazo nos interessam dois temas: comunicação e visibilidade. No México, nesta fase, começar com uma rede como é Cultura Viva Comunitária implica resistir a processos de incerteza econômica, com bastante adversidades. Neste sentido, acreditamos que o primordial é gerar um companheirismo entre os distintos estados que participam da plataforma e ir construindo ações conjuntas muito concretas.

Por outra parte, quando falamos de visibilizar não nos referimos às conquistas de um projeto em si, e sim aos fundamentos, problemáticas e propostas que nos vêm ocorrendo para mudar a fundo a realidade em nosso país. Vemos como uma conquista muito importante que a sociedade se veja em espelhos mais amáveis que apenas o terror, o medo e o automatismo.

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Saiba mais:

https://ninoscomelibros.wordpress.com/

www.facebook.com/comunidadcomelibros

 

(* Texto publicado em 22 de fevereiro de 2016)

“Más Música, Menos Balas”: das redes sociais às ruas de Guadalajara“Más Música, Menos Balas”: das redes sociais às ruas de Guadalajara“Más Música, Menos Balas”: das redes sociais às ruas de Guadalajara“Más Música, Menos Balas”: das redes sociais às ruas de Guadalajara

Por IberCultura Viva

Em19, Feb 2016 | Em | PorIberCultura Viva

“Más Música, Menos Balas”: das redes sociais às ruas de Guadalajara

Há quase cinco anos começou em Acapulco (Guerrero, México) uma campanha nas redes sociais que incentivava as pessoas a trabalhar colaborativamente na difusão da cultura da paz e na recuperação de espaços públicos afetados pela situação de violência extrema que vivia o estado de Guerrero. Seu lema? “Mais música, menos balas”.

O movimento, idealizado pelo comunicador e promotor cultural Abraham Chavelas, começou depois que 15 cabeças foram encontradas em um centro comercial do porto de Acapulco. Convencidos de que ninguém deveria se acostumar com o crime organizado e o medo, Abraham e seus amigos passaram a organizar concertos e eventos culturais na cidade antes considerada um destino paradisíaco. E “Mais música, menos balas” acabou crescendo e tomando outros rumos.

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“Seis meses depois do começo da campanha, me somo de Guadalajara (Jalisco) e, junto a 35 colaboradores, conseguimos desenvolver a campanha convertendo-a em uma ONG”, conta Belén Palacios, diretora da organização que foi criada no estado de Jalisco em 2012, uma vez que descobriram que já não era apenas uma campanha viral e que deviam “dar passos mais firmes, sair mais das redes e levar as ideais aos fatos”.

Nascia, então, a ONG Más Música, Menos Balas Guadalajara, que acabou seguindo seus próprios caminhos e atualmente é uma das 14 organizações participantes da plataforma Cultura Viva Comunitária México. Entre as ações que esses cidadãos criam para ajudar os outros e melhorar o entorno estão intervenções artísticas, exposições, concertos, apresentações de livros e oficinas, espaços de diálogo, feiras de organizações, galerias de arte e projetos de desenvolvimento comunitário.

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Foto: Abraham Aréchiga

“A violência não está só ligada ao narcotráfico, ainda que suas consequências sejam muito evidentes e alarmantes”, afirma Belén Palacios. “A violência está também nas ruas, nas escolas e em 20% dos lares da América Latina. A violência está muito próxima, mudando nossos hábitos, nossos estilos de vida, e convertendo-nos em vítimas deste ataque ou do medo que gera este contexto hostil.”

Uma vez que a violência afeta a todos, e nos distancia uns dos outros, os integrantes da organização sabem que a arte, a cultura e a educação são meios fundamentais para alcançar pouco a pouco a recuperação de uma vida em comunidade benéfica e estável. Por isso estão convencidos de que “Mais música” é também mais arte, mais cultura, mais cinema, mais teatro, mais literatura, mais dança, mais pintura…

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“A cultura e a arte são ferramentas de inestimável importância para a transformação dos povos, conscientes de que é preciso gerar ações imediatas que nos permitam reativar e recuperar espaços perdidos por causa do medo, afastar os jovens da delinquência e gerar espaços de intercâmbios culturais para a criação de novos públicos que desfrutem das expressões artísticas e desejem participar de projetos comunitários”, ressalta a diretora da ONG.

Ver nascer a plataforma Cultura Viva Comunitária México, em outubro de 2015, foi também uma forma de compartilhar os sonhos e a busca por uma ação cultural transformadora. “Decidimos fazer parte da rede para criar intercâmbios e alianças que nos permitam seguir fortalecendo a construção de um tecido cultural comunitário interessado e capaz de alcançar transformações sustentáveis”, justifica Belén. “Esperamos que a plataforma cresça e se desenvolva, aporte ideias e reflexões sobre uma visão comunitária da cultura, e que possamos influenciar nas mudanças sobre algumas políticas públicas”. Afinal, o combate à violência também passa pelo entendimento, pela integração e pela solidariedade.

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Leia também: O surgimento da plataforma Cultura Viva Comunitária México

 

 

Saiba mais:

www.facebook.com/masmusicamenosbalasguadalajara

https://twitter.com/menosbalasgdl

www.masmusicamenosbalas.com  (em construção)

http://culturavivacomunitaria.org.mx