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29

May
2017

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Estão abertas as inscrições para o registro de Pontos de Cultura no Uruguai

Em29, May 2017 | EmNotícias |

O encontro de coletivos e organizações de cultura de base comunitária realizado na última sexta-feira (26), como parte da programação da 6ª Reunião do Conselho Intergovernamental do IberCultura Viva em Montevidéu, terminou com uma boa notícia: o lançamento do registro dos “Puntos de Cultura” do Uruguai. A abertura das inscrições para o registro das organizações é o início do que pretende ser uma construção coletiva – do governo uruguaio com a sociedade civil – em torno do programa Puntos de Cultura no país.

O anúncio foi feito pelo diretor de Cultura do Ministério de Educação e Cultura do Uruguai, Sergio Mautone, no encerramento do encontro das organizações e representantes de governos, no Centro Cultural Mistério. Com a iniciativa, o Uruguai será o sexto país ibero-americano a implantar este modelo de política pública iniciado no Brasil em 2004. Argentina, Peru, El Salvador e Costa Rica também lançaram programas inspirados na experiência brasileira dos Pontos de Cultura.  

“Na Direção Nacional de Cultura entendemos que um dos pilares substantivos do desenvolvimento cultural está no desenvolvimento da política comunitária, porque é a partir desta transversalização que aportamos para a coesão social, a inclusão, o desenvolvimento e a sustentação de um sistema que tem que viver independente do Estado”, comentou o diretor.

Entendendo que o Estado tem o papel de facilitador, e que os conceitos de cultura devem ser construídos coletivamente, Mautone acredita que ferramenta ajudará o poder público a identificar e conhecer melhor as organizações da sociedade civil. Fortalecer a capacidade de gestão, poder estabelecer redes de convivência e contribuir para que todos os atores envolvidos nos processos possam redefinir ou reformular as políticas de apoio seriam alguns dos benefícios deste registro de organizações, segundo ele.

“É uma oportunidade rica para pensar conceitualmente, encher de sentido a palavra cultura, valendo-nos de uma ferramenta transformadora para poder situá-la na centralidade das decisões da agenda política e mostrar que a partir daí podemos construir uma perspectiva de desenvolvimento. Sem incorporar a cultura às estratégias de longo prazo não será possível pensar em um país no futuro.”

Participação social

Diego Benhabib, coordenador do programa Puntos de Cultura da Argentina, celebrou  com entusiasmo a iniciativa do país vizinho. “Para nós do Conselho Intergovernamental IberCultura Viva, (a implementação desta política pública) é uma questão central e estratégica na região”, comentou, ao explicar de que se trata o programa de cooperação ibero-americano, suas linhas estratégicas e apoios concretos, por meio de ações como os editais de intercâmbio e apoio a redes, além da proposta de um programa de formação em gestão e políticas públicas apresentada dois dias antes na reunião do Conselho.

“O que trabalhamos na jornada de hoje, seguramente, as organizações vão seguir debatendo, porque estes processos de refletir sobre a própria realidade, as formas de participação social, são a própria essência das organizações”, ressaltou Benhabib, referindo-se às mesas de trabalho “Participação nos contextos de cultura comunitária” e “Formação nos âmbitos da cultura comunitária”, que reuniram aproximamente 100 pessoas nesta sexta-feira no Centro Cultural Mistério.

“As organizações nascem a partir da ideia de que sozinhos é mais difícil conseguir objetivos do que coletivamente”, observou o coordenador dos Puntos argentinos. “Por isso a importância da cultura comunitária: para repensar o paradigma cultural, entender que cultura também é como melhoramos a relação com o vizinho, como entendemos que o outro é um companheiro que nos complementa com a sua voz e pode nos ajudar a alcançar aquilo que individualmente não podemos.”

Benhabib: “É preciso repensar o paradigma cultural, entender que cultura também é como melhoramos a relação com o vizinho”

Mesa de encerramento

Diego Benhabib foi um dos participantes da mesa de encerramento do evento,  ao lado de Sergio Mautone, diretor nacional de Cultura; Mariana Percovich, diretora de Cultura de Montevidéu; Federico Graña, diretor nacional de Promoción Sociocultural do Ministério de Desenvolvimento Social (MIDES), e Alejo Ramírez, diretor sub-regional para o Cone Sul da Secretaria Geral Ibero-americana (SEGIB).

Ramírez falou da importância para a Cooperação Sul-Sul de contar com um programa como IberCultura Viva, “que tem um impacto real” e “onde todos se beneficiam mutuamente”. Graña chamou a atenção para aqueles cidadãos e cidadãs que “só têm direito a certos direitos”, e destacou a necessidade de ações concretas dirigidas às comunidades, como os projetos que trabalham, por exemplo, cultura e afrodescendentes, cultura e diversidade, cultura e discapacidade. Também comentou a importância da geração de redes, a autogestão, a participação. “As políticas são das pessoas para as pessoas, mas elas também têm que aportar, ser parte da construção da política”, afirmou.

Percovich, por sua vez, destacou a ideia de descentralização cultural defendida pela Intendência de Montevidéu, com projetos emblemáticos como o Sacude, um centro cultural gerido por vizinhos e vizinhas do bairro Casavalle. “É uma beleza de projeto que tem que ver com vocês, com a gente organizada. O Estado, neste caso o governo departamental, aporta recursos humanos, mas quem toma as decisões são as pessoas”, afirmou.

No fim do encontro, Alba Antúnez, coordenadora do programa Esquinas (desenvolvido desde 2005 pela Intendência de Montevidéu em oito municípios), tomou o microfone para agradecer a todos os presentes e lembrar que o lançamento do registro dos Puntos de Cultura se trata de um início de processo. “É um registro que obviamente, com o correr do tempo, vai implicar apoios de diferentes tipos, mas iremos conversando, construindo como será tudo isso. Para chegar a estes encontros temos avançado, e à medida que trabalhamos mais próximos, também confiamos mais uns nos outros.”

Construção coletiva

A ideia de ter no Uruguai um programa de Puntos de Cultura vem sendo discutida nos últimos meses pelas organizações e coletivos que trabalham com cultura comunitária no país  e tem avançado bem, como mostrou o encontro de sexta-feira no Centro Cultural Mistério. Entre as cerca de 100 pessoas que participaram das mesas de trabalho estavam representantes de iniciativas governamentais, como os Centro MEC e os programas Urbano e Fábricas de Cultura, e de organizações da sociedade civil, como comissões de vizinhos, centros juvenis, teatros e rádios comunitárias.

Também estava presente a Rede Metropolitana de Cultura Viva Comunitária, uma das ganhadoras do Edital IberCultura Viva de Apoio a Redes 2016. Criada em novembro de 2015, por iniciativa de uruguaios que participaram das duas edições do Congresso Latino-americano de Cultura Viva Comunitária (La Paz e El Salvador) e de coletivos que queriam se juntar para articular propostas, a Rede Metropolitana propôs no edital a realização de seu segundo encontro em setembro, em Canelones, com o objetivo de reunir aportes para o 3° Congresso Latino-americano de Cultura Viva Comunitária, que será realizado de 20 a 25 de novembro em Quito, Ecuador.

Com o avanço dos diálogos em torno da construção do programa de Puntos de Cultura no Uruguai, o encontro metropolitano previsto passou a ter uma dimensão nacional. Por isso os dias 16 e 17 de setembro agora serão dedicados ao 1º Encontro Nacional de Cultura Viva Comunitária. O evento buscará reunir todos os coletivos e/ou participantes interessados na construção de políticas culturais que contribuam com formas de vida e trabalho comunitárias e coletivas no país.

O movimento começou há três anos no país com a Red Cultura Viva Comunitaria, que esteve à frente do primeiro encontro regional em Paysandú em 2014 e vem realizando reuniões de organizações e coletivos pensando em como contribuir com a organização do 1º Encontro Nacional. “Gostaríamos de nos encontrar com aquelas experiências que a partir da arte, da cultura e da comunicação trabalham  em bairros e populações de todo o país promovendo o encontro solidário e a participação entre vizinhos e famílias”, avisam os integrantes da rede nos chamados para o encontro. “É importante que nos reconheçamos, nos encontremos e pensemos juntos práticas de democracia participativa que nos permitam habitar o espaço público, incidir na política pública, promover ações comuns, gerar novas realidades estéticas e iniciativas sociais em diálogo permanente com as experiências latino-americanas”. O lançamento do registro dos Puntos de Cultura já é um  primeiro grande passo.

 

O registro dos Pontos

Podem se registrar como Puntos de Cultura no Uruguai as organizações, movimentos, associações, cooperativas, coletivos ou agrupações culturais da sociedade civil que trabalhem em nível comunitário, sem fins lucrativos, com pelo menos um ano de atividades ininterruptas. O registro é feito através da plataforma culturaenlinea.uy.

Os Puntos de Cultura podem ser centros culturais dos bairros, bibliotecas comunitárias, rádios comunitárias, grupos de teatro comunitário, de dança, artes circenses, audiovisuais, muralismo, literatura, boletins de barrios, gestão cultural comunitária, propostas alternativas econômicas solidárias e colaborativas, hortas comunitárias, sociedades de fomento e associações de vizinhos, que valorizem o papel da cultura e todas aquelas iniciativas que reconheçam a cultura como eixo e motor de desenvolvimento comunitário.

Para registrar um Punto de Cultura:

http://culturaenlinea.uy/proyecto/232/

Leia também:

Como organizar nossa esperança: O movimento de Cultura Viva Comunitária no Uruguai (por Paula Simonetti)