Image Image Image Image Image
/ /
Scroll to Top

Para o Topo

Experiências

Cecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidadeCecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidadeCecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidadeCecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidadeCecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidadeCecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidade

Por IberCultura Viva

Em16, May 2017 | Em | PorIberCultura Viva

Cecual: uma experiência de gestão cultural associada com a comunidade

Resistência, capital da província de Chaco, na Argentina, é conhecida como a “cidade das esculturas”, um museu ao ar livre onde pode-se observar nas ruas, praças e parques mais de 600 obras de artistas argentinos e de outros países. No coração da cidade há dois  pátios abertos onde também se respira arte e que há oito anos se afirma como um espaço de encontro, convivência e diálogo de vizinhos, artistas, gestores e fazedores culturais.

Ali funciona o Centro Cultural Alternativo, o Cecual, uma instituição pública que pertence ao Instituto de Cultura de Chaco e chama a atenção por uma particularidade: em seu espaço físico convivem 20 coletivos independentes. Nesta “vizinhança cultural” estão uma produtora audiovisual, uma editora independente, uma associação que trabalha com arte e saúde mental, um coletivo de comunicadores que mantém uma rádio, um coletivo de fotógrafos que tem um laboratório, grupos de música que armam ali sua incubadora musical, um coletivo de designers…

Com o lema “cultura do encontro”, o Cecual funciona como um espaço de formação e extensão para a comunidade, desenvolvendo múltiplas atividades voltadas para práticas culturais solidárias, geração de espaços de convivência, oficinas de inclusão, infância e meio ambiente, ciclos de conversas, música e espetáculos diversos.

(Fotos: Cecual)

As parcerias

Francisco “Corcho” Benítez, diretor do centro cultural, conta que se trata de uma experiência de gestão associada com a comunidade, inclusive em termos de elaboração de projetos e de decisão de orçamentos. A colaboração entre os coletivos cria instâncias de produção conjunta, o que faz do lugar um espaço de muita produção cultural. Além disso, há um sistema de contraprestação que os coletivos fazem – em termos de serviços ou recursos não econômicos – com o centro cultural e com a comunidade.

Fotos: Cecual

“Todos os coletivos, pela utilização do espaço físico dentro da instituição, criam diversas oficinas, capacitações, trabalhos para a comunidade, assistências diversas”, afirma. “É um esquema de participação dentro do âmbito público, mas também com instâncias de horizontalidade na tomada de decisão no que diz respeito à política do conteúdo do centro cultural, no que diz respeito aos orçamentos”.

“Foi um processo que fomos consolidando ao longo do tempo”, comenta Corcho. “Muitos de nós que aí estamos trabajando viemos do âmbito independente e, ao passar para o âmbito público, tentamos levar adiante um projeto que acreditamos que podia resultar exitoso, que é o Estado dialogando em igualdade com a produção cultural independente, com as associações, as organizações”.

O centro cultural existe há 20 anos, mas os coletivos ocupam seu espaço físico há menos tempo, desde 2008. E este projeto de gestão associada tem crescido muito, somam-se cada vez mais coletivos ao centro, o que vem gerando um nível maior de participação, de empoderamento da comunidade com o espaço.

Os desafios

O Cecual, afirma Corcho, tem se transformado em um espaço de discussões comunitárias, amplas, “um centro cultural que se pensa como um interlocutor, um mediador entre distintos âmbitos, a rua, o auditório, os saberes prévios, os novos conhecimentos, as formas da cultura popular com as novas formas de produção cultural, tratando de ver como esses fluxos se enriquecem mutuamente”.

Neste espaço social se trabalham questões relacionadas com infância e artes a partir de uma perspectiva de direitos, temáticas relacionadas com deficiências, a relação de cultura e acessibilidade. “Tentamos que o centro cultural seja um laboratório de políticas públicas de gestão coletiva, então tentamos gerar experiências, documentar, poder fazer aportes ao que acreditamos que podem se transformar depois em políticas públicas”, explica.

“Um desafio importante para nós tem a ver com como, a partir de uma instituição pública, pode-se acompanhar projetos autogeridos, independentes ou autônomos de uma maneira que não percam suas singularidades, suas particularidades, suas formas e suas lógicas de produção, mas que também se convertam todos num projeto coletivo, que é o Centro Cultural Alternativo”, ressalta o diretor. “É também um desafio nosso, a partir da gestão, acompanhar, saber respeitar os tempos e as modalidades organizativas.”

Gestar espaços de qualidade e convivência, fortalecer processos colaborativos e acompanhar os distintos momentos por que passam os projetos culturais são algumas das funções do centro cultural, cujo espectro de trabalho vai desde a produção de desenho até as ciências sociais. “O projeto não se entende sem essa vinculação forte entre uma instituição pública e organizações da sociedade civil, sem a convivência e o aporte destes projetos”, observa Corcho.

Reconhecimento

Convencido de que um espaço cultural não se define somente por seu conteúdo, e sim por sua maneira de construir e compartilhar, Corcho leva adiante a ideia de que os recursos públicos são ferramentas para a participação comunitária e que é importante pensar a gestão de organismos públicos abertos à comunidade, de caráter participativo, inclusivo e sustentável.

Ao longo destes anos, por esta forma organizativa que tem tido, de reconhecimento, de entusiasmo pelo trabalho da comunidade e dos coletivos, o Cecual tem tido também uma relevância em nível regional e nacional. Sustentando-se em uma cidade com pouco mais de 500 mil habitantes, o centro, com suas múltiplas atividades, está em relação com umas 60 mil pessoas, segundo Corcho.

Entre designers e ciclistas, amantes das artes e das hortas, os “cecualeros” que os coletivos congregam no centro cultural são cerca de 300 pessoas. “Às vezes temos coletivos que não têm espaço físico aí, mas participam sim de alguma maneira, e há toda uma produção cultural que tem a ver com ciclos de música, ciclos de teatro, e muito com seu entorno, sua produção local, ampliada nos últimos anos a um vínculo forte com toda a região (Misiones, Corrientes, Formosa) e com laços fortes com Paraguai”, afirma.

Este ano, nos dias 31 de março, 1 e 2 de abril, dezenas de gestores culturais de Argentina, Brasil, Bolívia e Paraguai se reuniram no Cecual para o 1er Encuentro Federal de Gestores. Durante três dias, no pátio da casa, sob a embaúba, os participantes do encontro discutiram questões de gênero, inclusão, militância cultural, direitos indígenas e indústrias culturais, entre outros temas. Afinal, como defende Corcho Benítez, não se pode fazer ou pensar a gestão cultural sem uma mirada histórica e política que permita compreender as disputas e complexidades sempre presentes em um território, em um país, em uma região.

Leia também:

Por la ruta de lo colectivo

El Cecual reúne a la cultura bajo el árbol del ambay

 

Saiba mais:

http://cecual.blogspot.com.br/

http://www.cecual.com/

https://www.facebook.com/CECUAL/

 

E-mail: cecual.info@gmail.com

 

Silvia Bove, a professora de artes plásticas que se apaixonou pelo teatro comunitárioSilvia Bove, a professora de artes plásticas que se apaixonou pelo teatro comunitárioSilvia Bove, a professora de artes plásticas que se apaixonou pelo teatro comunitárioSilvia Bove, a professora de artes plásticas que se apaixonou pelo teatro comunitário

Por IberCultura Viva

Em07, Dec 2015 | Em | PorIberCultura Viva

Silvia Bove, a professora de artes plásticas que se apaixonou pelo teatro comunitário

silvia-bove-perfilSilvia Bove não pensava que se dedicaria ao trabalho comunitário quando começou a estudar artes. Achava que seria professora como a mãe, já que isso lhe parecia divertido. Mas acabou se dando conta de que não era uma pessoa que dá as costas para algo. Pelo contrário. “Grandes satisfações me avisam que vou por um bom caminho e confirmam que não podemos ser endogâmicos”, afirma.

Licenciada em artes plásticas pela Universidade Nacional de Cuyo, Silvia trabalha na área de pesquisa e ludoteca do Museu Provincial de Belas Artes Emiliano Guiñazú – Casa de Fader – em Mendoza, Argentina. Também é presidenta da Associação Civil Chacras para Todos, que ali atua desde 2008 e foi declarada em 2012 como Círculo de Cultura (o equivalente ao Pontão de Cultura no modelo brasileiro) de teatro comunitário.

Sua relação com a comunidade, ela conta, se deu de maneira natural, desde a infância, sobretudo com a mãe, que era muito comprometida com todos ao redor. “Sempre estive ligada a tarefas de caráter coletivo, centro de estudantes no ensino médio, associação de vizinhos no bairro. Na universidade também participava do centro de estudantes, criando projetos coletivos, realizando atividades culturais…”

chacras-3xComo professora de ensino fundamental, trabalhou para o Estado em zonas humildes, realizando atividades no território onde se situava a escola (criando, por exemplo, murais no bairro contra o trabalho infantil). Em escolas técnicas para adultos, desenvolveu trabalhos voltados para a autogestão e a independência profissional. “Sempre trabalhei em cada território em que vivi e estudei. Sou uma pessoa dinâmica e criativa, e verto isso para as tarefas coletivas”, explica.

Quando se casou e se mudou para outro bairro, estavam formando por ali um teatro comunitário, Chacras para Todos. Silvia, que vinha das artes plásticas, não conhecia aquelas pessoas, mas logo se interessou. “No primeiro dia de atividades com a comunidade, eu fui porque queria fazer um curso de acrobacias em tecido”, comenta. “Quando me perguntaram a que me dedicava, me ofereceram trabalho no espaço de artes plásticas, e como sempre digo que sim, mergulhei num novo mundo pelo qual estou apaixonada há oito anos, apesar do enorme esforço que isso acarreta”.

chacras-unahiguera

Silvia (de peruca laranja) com o elenco do espetáculo “Uma figueira para todos”

A associação

Neste novo mundo ela encontrou gente de todos os tipos, idades e classes sociais. Na região onde a Associação Chacras para Todos trabalha, há aqueles que vivem em bairros privados (condomínios), buscando segurança atrás de muros, e aqueles que vivem em zonas ocupadas, ou sem escrituras, e muitas vezes são os empregados domésticos, jardineiros ou pedreiros dos que vivem atrás dos muros. “Todos esses vizinhos integram o teatro e ali todos somos iguais. Isso tem nutrido muito a comunidade, no sentido de integrar e construir um povo mais justo e solidário”, afirma.

A associação atua desde 2008 formando jovens, crianças e adultos na construção da cidadania e do empoderamento por meio da arte. Trabalha em redes e atividades de ação cultural mediante linguagens artísticas como teatro, música, circo e arte cenográfica. Não apenas acompanha, mas também capacita na formação de cooperativas culturais. “Entendemos que não podemos transformar sozinhos. Se o fazemos entre diversas organizações e atores sociais – por exemplo, saúde, educação, governos e empresários–, todos acompanhamos as transformações”, ressalta.

Eventos culturais, resgate de festas populares, carnavais e festas da uva também são parte do trabalho, pois eles acreditam que a comunidade deve se encarregar de suas celebrações. “Também tentamos unir bairros e territórios por meio de ações constantes em suas praças (oficinas de percussão, artes plásticas, murais, bailes, Dia das Crianças, Dia das Mães, etc)”, acrescenta.

silvia-carnaval

Disfarçada no baile de carnaval da praça

Silvia acredita na força do aprendizado que as pessoas têm com referências próximas, como vizinhos, familiares ou grupos que colaboram com o local onde vivem. Em 2000, ela e a família sofreram com a crise na Argentina e se viram obrigadas a começar de novo. E foram os amigos e familiares que ajudaram a seguir em frente. “Isso marca. Neste momento disse a mim mesma que devia fazer o mesmo. E acho que a arte é uma ferramenta maravilhosa para chegar à comunidade.”

Uma das maneiras que ela encontrou de se aproximar dos vizinhos foi por meio de um projeto de estimulação artística com jogos (sua tese de licenciatura), algo que tem a ver com jogo e arte e faz com que as pessoas possam intervir na obra, seja ela individual ou coletiva. “Sinto que durante toda a vida estive me preparando para o que sou agora. E sempre fiz o quis.”

silvia-bove-teatro

El Salvador

Silvia Bove foi uma das ganhadoras do Edital IberCultura Viva de Intercâmbio, na categoria II, que visava o apoio à participação no II Congresso Latino-americano de Cultura Viva Comunitária, realizado entre 27 e 31 de outubro de 2015. A viagem a El Salvador, segundo ela, foi “uma experiência transformadora”, “um encantamento coletivo”, “um alto aprendizado, uma confirmação do caminho percorrido, uma profunda emocão do conquistado em suas comunidades, povoados ou territórios”.

“Pude participar do I Congresso de Cultura Viva Comunitária na Bolívia e foi algo que não se pode descrever em poucas palavras, nos encheu a alma de novos olhares, rompeu muros e fronteiras, nos levou ao ritual, ao ancestral, e El Salvador, às revoluções, ao olhar coletivo e solidário de seu povo, à dor transformada em arte.”

SILVIA-EMILIA-BALAN-FOTO-MARIO-ALBERTO-SINIAWSKI

Silvia com Emília de la Iglesia e Eduardo Balán na “comparsa” que encerrou o Congresso de El Salvador. (Foto: Mario Alberto Siniawski)

A poucos dias do regresso, ainda com a emoção à flor da pele, Silvia escreveu sobre a experiência, desde a chegada ao aeroporto de San Salvador até o último dia, quando houve a “comparsa escénica” (bloco, passeata festiva) e o abraço coletivo “que selou este pacto de almas e deixou aberto o convite ao encontro de irmandades seguinte, no Equador”. (Quito será a sede do III Congresso Latino-americano de Cultura Viva Comunitária, em 2017.)

“Fomos um movimento de almas, uma consequência de ações invadindo nosso coração. Fomos habitat dos povos, vozes que ressoam na América. Somos construtores da nossa história, de nosso passado, presente e futuro”, escreveu em seu diário de bordo. “(…) Minha alma representa minha comunidade, meu ponto essencial, e nada impedirá que deixemos de vibrar.”

Leia também:

Associação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidade

 

Saiba mais:

www.facebook.com/chacras.paratodos

Associação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidadeAssociação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidadeAssociação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidadeAssociação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidadeAssociação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidadeAssociação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidade

Por IberCultura Viva

Em06, Dec 2015 | Em | PorIberCultura Viva

Associação Chacras para Todos: o teatro como ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidade

Não existe um papel principal nas obras de teatro comunitário criadas na Associação Chacras para Todos, que atua desde 2008 na província de Mendoza, na Argentina. Qualquer um pode tomar o lugar do outro no palco. E os tipos ali são os mais diversos, em gostos, vontades, idades e condições sociais. “É disso que se trata o coletivo, da celebração, da  memória, da pluralidade de gente e de pensamentos”, afirma a presidenta da organização, Silvia Bove.

Desde que o grupo se formou no território de Chacras de Coria (Luján de Cuyo) foram criadas várias obras, a maioria com a participação de aproximadamente 40 vizinhos em cena. A primeira foi El corazón en la botella (“O coração na garrafa”, 2008). Depois vieram Aroma de mil colores (“Aroma de mil cores”, 2009), ¿Chacras sobre ruedas? (“Chacras sobre rodas?”, 2011), De muros a Puentes (“De muros a pontes”, 2013), De esto no se habla (“Disso não se fala”, 2014), Una higuera para contar (“Uma figueira para contar”, 2014)… Como muitas das obras contam coisas que passam pela comunidade, é importante que sejam muitos os atores-vizinhos e de todas as idades. Às vezes há famílias completas em cena.

chacras-10Silvia Bove conta que a criação dos espetáculos é feita de maneira coletiva, com contribuições dos vizinhos, e depois se realiza a dramaturgia pela equipe de coordenadores. “As obras nunca ficam fechadas, vão sempre mudando.” A maioria tem forte conteúdo social e fala do que passa na comunidade. Na verdade, não há muito texto falado nas obras. Utiliza-se como recurso expressivo a voz coletiva e o cardume (agrupamento de pessoas) por meio do canto.

chacras13“Todos se comprometem, já que são parte da criação”, assegura a presidenta da associação. “Com a obra saímos às praças, que é o lugar de pertencimento e que dá vida à comunidade, uma reivindicação pós-ditadura, já que o processo militar, de 1976 a 1982, proibiu que a comunidade se reunisse, e suprimiu o carnaval.” (Há quatro anos eles trabalham em rede para fortalecer o carnaval na comunidade).

O teatro Chacras para Todos faz parte de várias redes, entre elas a Rede Nacional de Teatro Comunitário, a Rede Mendocina de Teatro Comunitário, os Pontos de Cultura da Argentina e o movimento de Cultura Viva Comunitária. O grupo se define como independente, com uma política comunitária, não partidária, já que a arte é uma ferramenta de transformação social e empoderamento da comunidade. “Se colocarmos uma cor partidária, perderemos uma parte dos vizinhos”, explica Silvia.

Os vizinhos em geral vão e vêm, os atores vão se revezando no palco. Atualmente, são cerca de 120 vizinhos que vão aos diversos cursos da associação. Participam do elenco uns 35, algumas vezes mais outras menos. E eles adoram o palco, ainda que sejam pessoas com profissões que nada têm a ver com o teatro. “A verdade é que se transformaram em grandes profissionais e gestores culturais. Quando o vizinho se empodera do teatro, a força viva comunitária flui”, destaca Silvia, que divide a equipe de coordenação com Pía Santarelli e Maria Lacau. O projeto conta com 17 professores.

Círculo de Cultura

chacras6 (2)Em 2012, a Associação Chacras para Todos foi reconhecida pelo Ministério da Cultura da Argentina como Círculo de Cultura. Um dos objetivos era a formação de três cooperativas culturais no território, com vistas à independência e a autogestão. Conseguiram. Sendo Círculo de Cultura, a organização pôde contribuir com a formação de três cooperativas com financiamento do programa, e de mais quatro sem financiamento. São cooperativas de diversos ramos: murgas ao estilo uruguaio, circo aéreo, um centro cultural, uma banda de “música flamenca impura”, como eles chamam, e um centro de pesquisa da cultura africana.

“Além de trabalhar em nosso espaço cultural e arredores, contamos com uma equipe de trabalho linda, a maioria jovens estudantes de distintas carreiras artísticas e de comunicação da Universidade Nacional de Cuyo. Isso (ser Círculo de Cultura) ajudou a eles e a nós, e nos permitiu firmar mais no território. Demanda bastante trabalho, mas é muito lindo o que devolve (das pessoas)”, acrescenta Silvia.

chacras11“O programa continua e esperamos nesta etapa poder nos fortalecer mais por meio da geração de redes que temos formado, irmanando com eles ainda mais”, comenta a presidenta, ressaltando também que o fato de ser Círculo de Cultura lhes deu autoestima e um vínculo com o Estado e com a Rede de Pontos de Cultura, além de ajudar a sistematizar as informações e ver tudo o que eles têm feito ao longo destes anos.

Segundo Silvia, nestes oito anos de trabalho em praças, espaços comunitários e teatros, muita coisa mudou na vida dos integrantes e na cultura local da zona onde vivem. “Somos as maiores referências em teatro comunitário na provincia de Mendoza, já que temos podido nos sustentar nesse tempo, crescer, nos reinventar, nos adaptar às mudanças, trabalhar em rede”, festeja.

chacras5

Primeiros passos

chacras-radioDesde o começo das atividades em Chacras de Coria, em 2008, o projeto artístico comunitário Chacras para Todos foi declarado de interesse do estado pela Câmara de Senadores da Provincia de Mendoza. Em 2010, a organização de vizinhos ganhou sede no antigo cinema Splendid (hoje Teatro Leonardo Favio), e desde 2012 atua também em bairros afastados de Chacras de Coria, como parte dos Projetos de Inclusão Social e Igualdade de Oportunidades Gustavo Andrés Kent y Mauricio López.

A associação, além de contribuir com o projeto de lei de Cultura Viva Comunitária e a  Lei Federal de Cultura, se encarrega de organizar encontros de coordenadores de teatro comunitário da Argentina, favorecendo a construção da Rede Nacional de Teatro Comunitário, que conta com 52 teatros distribuídos em todo o país.

Difundir a Cultura Viva Comunitária “pela região, pela província, o país e o mundo”, realizando e participando de atividades, congressos e encontros de CVC, é um dos  principais objetivos da instituição. Assim como “construir e formar redes de trabalho com o espírito da Cultura Viva Comunitária” e “incluir a maior quantidade de vizinhos, empoderando-os em sua força viva”. “Temos a convicção de que a transformação se dá desde a base, de baixo para cima, e desde o fazer cotidiano e da entrega comunitária”, afirma Silvia. A voz coletiva, ela acredita, “é a força que derruba fronteiras e constrói pontes”.

chacras9

Leia também:

Silvia Bove, a professora de artes plásticas que se apaixonou pelo teatro comunitário

Saiba mais:

www.facebook.com/chacras.paratodos

Catalinas Sur: quando o teatro da praça ganha o mundoCatalinas Sur: quando o teatro da praça ganha o mundoCatalinas Sur: quando o teatro da praça ganha o mundoCatalinas Sur: quando o teatro da praça ganha o mundoCatalinas Sur: quando o teatro da praça ganha o mundo

Por IberCultura Viva

Em25, Sep 2015 | Em | PorIberCultura Viva

Catalinas Sur: quando o teatro da praça ganha o mundo

Quando o uruguaio Adhemar Bianchi disse aos pais de alunos da Escola Carlos Della Penna, no bairro Catalinas Sur, em Buenos Aires, que queria fazer teatro nas praças, a primeira reação foi de espanto. “Na praça?!”, perguntaram todos, meio incrédulos. Vindos de uma ditadura sangrenta, nada acostumados a ocupar as ruas da capital argentina, eles acharam aquilo uma temeridade. Eram todos vizinhos no pequeno bairro localizado na entrada de La Boca, e ainda que vivessem bastante ocupados com seus trabalhos, acabaram aceitando a ideia do diretor uruguaio naquela tarde de março de 1983. E nunca mais saíram da praça. 

Faz 32 anos que aquele grupo de pais descobriu no teatro da praça a possibilidade de se comunicar com outros vizinhos, de se manifestar, de trabalhar a memória e a identidade do território ao qual pertenciam. Ali, na Praça Malvinas, com suas “festas teatrais” (era assim que chamavam os encontros que faziam, churrascada incluída), os vizinhos viram que aqueles “pequenos pedacinhos de arte” de cada um se entrelaçavam, convertendo-se numa poderosa fonte de comunicação e entusiasmo.

catalinas-calle-jr-fotografia

O povo ocupa as ruas de La Boca, em Buenos Aires: teatro para todos. Foto: JR Fotografia

Atualmente, são mais de 300 os “vizinhos” que fazem da Associação Catalinas Sur uma das experiências mais incríveis em termos de cultura de base comunitária na Ibero-América. Em vez de festas com churrasco, eles organizam cursos de teatro para adultos, adolescentes e crianças, circo, títeres, orquestra de tango, formação em instrumentos musicais, movimento, coreografia e dança, cinema e fotografia comunitária.

E ainda que tenham um teatro e saiam em viagem pelo mundo, seguem sendo “vizinhos trabalhando para transformar em realidade as utopias” em que acreditam. Mesmo que muitos não vivam mais no bairro, são um grupo de La Boca do Riachuelo. Trabalham no bairro e se reconhecem seguidores das tradicionais manifestações artísticas do lugar. A arte dos titereiros, a opereta, a zarzuela, o sainete, o circo, a murga, o candombe, todas as manifestações se misturam e ambientam as produções do grupo.

carpa-quemada-foto-julia-anguita

“Carpa Quemada: el circo del centenario” : a história da Argentina contada por palhaços. Foto: Julia Anguita

Mil projetos

São vários os projetos em que os “vizinhos” atuam. Entre eles está a Rede Nacional de Teatro Comunitário, que desde 2003 multiplica a experiência do bairro La Boca em outras comunidades. Em busca de ações conjuntas e troca de saberes, recursos e experiências, o Grupo Catalinas Sur também participa de iniciativas como a Aliança Metropolitana de Arte e Transformação Social, a Rede Latinoamericana de Arte e Transformação Social, e a rede “Artetransformadora”.

Além disso, eles têm um espaço na rádio 89.3 FM para conversar sobre arte, política, imaginação, sonhos coletivos, utopias… E oferecem cursos para a comunidade no Galpão Catalinas, a “praça com teto” do grupo, com aulas de circo, teatro, títeres, candombe, música, percussão. E organizam encontros nacionais de teatro comunitario. E promovem o Festival Internacional de Títeres…

orquestra-atipica-foto-negrobarroso

Orquestra Atípica Catalinas Sur. Foto: Negro Barroso

As diferentes atividades artísticas são concebidas como formas de comunicação, participação e transformação social. Os espetáculos usam linguagem direta e compreensível a todos e abordam com profundidade os temas sociais e comunitários. 

“Através do teatro tentamos recordar o valor de nossas histórias individuais e coletivas e recuperar a memória que acreditou e acredita em um mundo melhor. Nosso desafio é seguir acreditando que as utopias são possíveis e trabalhando dia a dia para conseguir isso”, dizem eles no site do projeto (www.catalinasur.com.ar). “Entendemos o teatro que fazemos como um teatro da comunidade, para a comunidade, já que somos vizinhos que trabalhamos para vizinhos de todos os bairros.”

O bairro Catalinas Sur

Em 2013, quando o grupo completou 30 anos e o bairro Catalinas Sur, 50, eles lançaram o filme “Viemos de muito longe” (“Venimos de muy lejos”), dirigido por Ricardo Piterbarg. Nascido da obra de teatro que leva o mesmo nome e que o grupo vem apresentando desde 1990, o filme parte da fusão de cinema e teatro, de ficção e documentário, para abordar processos importantes da história local, como a construção do bairro e a confluência de vidas na praça pública.

comienzos_06

Primeiros tempos: os vizinhos fazem teatro na praça do bairro

La Boca é o bairro onde muitos imigrantes italianos e espanhóis se instalaram no fim do século 19, princípio do século 20. Ganhou esse nome porque fica na desembocadura do Riachuelo no Rio da Prata, a quatro quilômetros de distância do centro de Buenos Aires. 

Catalinas Sur foi o nome dado ao pequeno bairro localizado na entrada de La Boca. O complexo habitacional, criado na década de 1960, é considerado um “oásis” dentro do caos portenho, um rincão urbano sem asfalto, apenas com calçadas (carros não passam), onde vivem cerca de 10 mil pessoas.  A Praça Malvinas, onde uns 30 pais de alunos participaram da primeira reunião de teatro, é uma das cinco praças do bairro.

A Escola Carlos Della Penna, também conhecida por Primária n° 8, foi doada por um imigrante (que lhe dá nome) e teve sua construção parada pela metade por causa das inflações. Os vizinhos então se juntaram numa associação e trabalharam juntos até que a escola estivesse terminada. Com a ditadura militar, iniciada em 1976, a associação foi expulsa de lá. Por isso o temor inicial daqueles pais em fazer teatro na praça. Por sorte havia alguém como Adhemar Bianchi para convencê-los. O uruguaio ainda dirige o grupo, que depois de 32 anos segue como um grupo de vizinhos que faz teatro para outros vizinhos, emocionando o público a cada sessão.

 

Saiba mais:

https://www.facebook.com/grupodeteatrocatalinasur

www.catalinasur.com.ar

Assista ao trailer do filme “Venimos de muy lejos”

Assista aos vídeos:

História de uma utopia – Parte 1″

“História de uma utopia – Parte 2”

 

 

 

 

Tantanakuy: onde todos se encontram para celebrar a música da terraTantanakuy: onde todos se encontram para celebrar a música da terra

Por IberCultura Viva

Em25, Sep 2015 | Em | PorIberCultura Viva

Tantanakuy: onde todos se encontram para celebrar a música da terra

Na Quebrada de Humahuaca, uma das paisagens mais singulares do noroeste argentino, há um lugar que serve de ponto de encontro para a arte e a cultura da região há 40 anos. Seu nome é Tantanakuy, palavra quechua que significa encontro de uns com os outros. Inicialmente uma reunião anual de amigos para celebrar a cultura regional, o Tantanakuy se converteu em um importante centro cultural da província de Jujuy, onde crianças, jovens e adultos aprendem que o desenvolvimento começa com a valorização dos costumes e das tradições de seus povos.

03lu nadia pamela

Cursos de artes estão entre as atividades oferecidas às crianças de Humahuaca, em Jujuy

A história do Tantanakuy se escreve em meio aos morros multicoloridos, as casas de adobe e as ruas de pedras estreitas de Humahuaca. É uma história de reconhecimento aos povos aborígines, aos “homens morenos” que ali viveram, e que se mistura à história de um de seus criadores, o mestre charanguista Jaime Torres.

Um dos grandes nomes da música folclórica argentina, filho de pai boliviano e mãe chilena, Jaime Torres começou a reunir em Humahuaca, a partir de 1975, artistas amigos como o músico Jaime Dávalos, o pintor Medardo Pantoja e o poeta Jorge Calvetti. Figuras de trajetória internacional, eles participavam das festas no povoado em igualdade de condições com os artistas locais, sem cobrar nada para estar presente, contentes por compartilhar a música da terra, os costumes e tradições — coisas que às vezes parecem tão simples, mas são profundas e marcam o destino dos povos.

Assim, ao menos uma vez por ano, o Tantanakuy transformava em protagonistas aqueles instrumentistas andinos não profissionais, pastores, mineiros, oleiros, que faziam a música do altiplano. Sem fins comerciais nem competitivos, os encontros tinham um único objetivo: potencializar as manifestações que fortaleciam a identidade cultural, regional e a troca de saberes.

O encontro anual de amigos logo inspirou uma versão para crianças: o Tantanakuy infantil, criado em 1980. Em 1987 se constituiu uma associação civil sem fins lucrativos, com Jaime Torres como presidente. Depois foi a vez da Casa del Tantanakuy, centro cultural que se mantém desde o ano 2000 com atividades permanentes para resgatar a cultura da zona da Quebrada e Puna.

A cargo do músico Juan Cruz Torres (o quarto dos cinco filhos de Jaime Torres) e de sua mulher, Aldana Loiseau, o centro cultural, além de organizar os encontros, desenvolve um projeto educativo e sociocultural que engloba uma biblioteca popular, uma sala de cinema, um salão-auditório de 110 metros quadrados e espaços para cursos de música, tecido, piano, guitarra, animação, teatro, danças folclóricas, corte e confecção regional e artesanal, entre outros.

tantanakuy-Premio-ninos

Aldana Loiseau e as crianças da Casa Del Tantanakuy

A festa

De 26 a 28 de agosto de 2015, houve uma grande festa popular em Humahuaca intitulada “Tantanakuy, 40 anos de identidade cultural”. “Tudo correu bem e com momentos muito emotivos”, conta Juan Cruz Torres. No primeiro dia de festa, San Salvador de Jujuy assistiu a uma “jam session” de músicos que não estava prevista e resultou numa “linda mescla de músicos e música”, segundo Juan.

No dia 27 houve bate-papos no centro cultural, apresentação de livros e projeção de vídeos lembrando emotivamente os 40 anos da iniciativa. No dia 28, foi a vez de uma cerimônia tradicional do mundo andino, o “corpachar” (ou “dar de comer à terra”), que se realiza sempre em agosto. “Foi muito emocionante compartilhar este momento com muitos amigos e irmãos músicos”, comenta Juan. À tarde começou o encontro de músicos, num grande palco montado na praça de Humahuaca. Como nos velhos tempos.

O vale

Declarada Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2003, a Quebrada de Humahuaca se estende por 170 quilômetros de vales e montanhas, ao largo de um importante itinerário cultural, o Caminho do Inca, que abarca outros países da região, indo desde a província de Córdoba até o Alto Peru.

O vale andino remonta a um itinerário cultural de 10 mil anos. Ali habitaram povos originários de distintas etnias, que ainda hoje conservam crenças religiosas, ritos, festas, arte, música e técnicas agrícolas, coexistindo com a natureza, a Pachamama (a mãe terra), e todos os seres vivos que respeitam.

As raízes

Nascido em 1938 em San Miguel de Tucumán, ao norte da Argentina, Jaime Torres cresceu escutando seus familiares falando às vezes em quechua, ouvindo os “homens morenos” a levar seus charangos com grande profundidade. Ele se criou neste meio, passou a infância em Cochabamba, Bolívia. E ainda que tenha passado a maior parte da vida em Buenos Aires, se manteve fiel a suas raízes e valores culturais.

jaime_torres_-_foto_2 (1)

Jaime Torres, o maestro charanguista

Jaime Torres recebeu as primeiras lições de charango do boliviano Mauro Nuñez, que também construiu seus primeiros instrumentos. Outros foram feitos pelo pai,  Eduardo Torres, um habilidoso ebanista chuquisaquenho (Chuquisaca é um departamento da Bolívia que tem como capital a cidade de Sucre). Criado pelos povos criolos, provavelmente no século 18, o charango é um instrumento de cordas parecido com a viola espanhola. Tem algo de guitarra e elementos de bandolim (o tamanho, as cordas duplas, a caixa curva). 

Nas mãos hábeis de Torres, o instrumento deixou de ser apenas acompanhante, estando apto para interpretar toda sorte de melodias. As clássicas são os regionais huaynos, camavalitos, cuecas, bailecitos, chutunquis, pasacalles. O mestre charanguista tem tocado em todo tipo palco com idêntico entusiasmo, desde as ruas de Jujuy (aos pés de monumentos e árvores centenárias), até o prestigioso Teatro Colón de Buenos Aires e a Filarmônica de Berlim.

Três perguntas para Juan Cruz Torres

1.Você e sua mulher vivem no centro cultural, em pleno coração de Humahuaca, a criar suas filhas, a projetar filmes para a garotada do bairro, dar cursos musicais, ensaiar e gravar. Por que decidiram viver aí?

O Centro Cultural Casa del Tantanakuy foi inaugurado em 1998, mas, como não tinha uma pessoa vivendo nele, as atividades eram muito limitadas. Desde o ano 2000 propusemos começar com as atividades de cinema e desenho (minha mulher) e de música (eu). Naquele momento viemos para Humahuaca pensando em ficar quatro meses, mas fomos estendendo e prorrogando essas datas e já vamos passando os 15 anos. Foi revelador para nós e formamos uma linda geração de garotos.

2.A Casa del Tantanakuy é Ponto de Cultura desde 2012. De que maneira isso mudou as atividades que vinham desenvolvendo?

Passar a ser um Ponto de Cultura potencializou distintas áreas e cursos da casa. Foi um novo impulso naquele momento em que estávamos em uma mudança de geração, dos garotos que deixaram de ser crianças e os novos que foram se aproximando. A experiência em particular foi com um curso de música ditado por um dos meus alunos, o que faz sentir que a herança está assegurada. A sala de gravação recebeu ajuda do programa para poder se equipar. Estamos começando a desenvolver o primeiro estúdio de gravação comunitário.

3.O que lhes orgulha mais desses 40 anos?

O orgulho de saber que tanto o encontro Tantanakuy como o centro cultural têm sido motivadores de muitíssimos artistas. Ou seja, graças a este encontro, muitos meninos se animaram a cantar, a tocar instrumentos nativos. Isso era algo que estava se perdendo e que meu pai advertiu lá por 1973. Este encontro foi motivador para o resgate e a conservação da cultura. Antes muitas pessoas sentiam vergonha de sua origem, cultura e costumes. O Tantanakuy reverteu essa vergonha e a transformou em um movimento grande, com músicos da região da Quebrada de Humahuaca e Jujuy, que passaram a conhecer sua arte, sua cultura, e a sentir orgulho de sua origem.

Assista ao vídeo do Wayuro sobre o Tantanakuy

Assista ao vídeo em que Jaime Torres toca “Diablo suelto”

Assista ao vídeo em que Jaime Torres fala sobre Tantanakuy

La Colmena e a “rádio da esperança”: um bairro unido para romper o silêncioLa Colmena e a “rádio da esperança”: um bairro unido para romper o silêncioLa Colmena e a “rádio da esperança”: um bairro unido para romper o silêncioLa Colmena e a “rádio da esperança”: um bairro unido para romper o silêncio

Por IberCultura Viva

Em24, Sep 2015 | Em | PorIberCultura Viva

La Colmena e a “rádio da esperança”: um bairro unido para romper o silêncio

Na região metropolitana de Buenos Aires – mais especificamente em Villa Hidalgo, José León Suárez, partido de San Martín –, há uma rádio que não só diz, mas também faz, que não apenas denuncia violação de direitos, mas também anuncia as boas-novas, as boas experiências. Seu lema? “FM Reconquista, para voltar a acreditar e deixar mais forte a esperança.”

No ar desde 1988, a “rádio da esperança”, gerida pela Associação Civil de Mulheres La Colmena, é uma das organizações que surgiram a partir do Centro de Comunicação Popular Renascendo, criado por um grupo de vizinhos em 1982, 1983, quando a Argentina começava a despertar do pesadelo da ditadura militar.

O Centro de Comunicação Popular Renascendo surgiu com a intenção de dar voz àqueles que haviam estado silenciados por tanto tempo, com a proposta de fazer da comunicação comunitária uma ferramenta para que as organizações e o bairro pudessem se expressar autêntica e livremente, sendo donos e protagonistas das próprias mensagens.

Começou como uma organização territorial, onde se incluía proprietários e não proprietários (villeros) para levar adiante tarefas próprias do desenvolvimento local, como a titularidade das terras, a criação de escolas, a provisão de água potável, luz elétrica, construção de calçadas, cruzamento de ruas, etc.

FMReconquista

Simultaneamente veio a proposta cultural, “como uma ponte que entrelaça vidas, sonhos, experiências das províncias de origem de cada um de seus habitantes”, como diz Margarita Palacio, dirigente da Associação de Mulheres La Colmena.

Surgiram, então, o teatro de rua, os músicos locais, os audiovisuais (feitos em slides, musicalizados e editados com fitas de gravação), o grupo de leitura crítica de meios de comunicação, o grupo de fotografia e de cinema em super 8, a revista do bairro.

A Revista Renaciendo, que chegou a ter uma tiragem de 2.000 exemplares vendidos casa por casa, megafone nas mãos, anunciou em seus últimos números a entrada no ar da FM Reconquista, em 1988. Dois anos depois, em 1990, as mulheres reunidas, reclamando seu lugar, se constituíram juridicamente como organização, com a Associação de Mulheres La Colmena.

Direitos

La Colmena tem como missão trabalhar pela promoção integral dos direitos das mulheres e suas famílias, por meio do desenvolvimento de estratégias de inclusão educativa, política, econômica e social, baseadas no respeito à cultura do trabalho, ao meio ambiente e aos direitos das crianças e adolescentes, a partir de uma perspectiva de gênero.

mateandojuntas

“Mateando juntas”, um dos programas da FM Reconquista, é conduzido por mulheres da associação La Colmena

A rádio coordena um espaço em rede constituído por 30 organizações sociais e comunitárias do território, a Rede Comunicacional e Social Reconquista. Um de seus programas se chama “Mateando juntas”. Produzido e conduzido por mulheres da associação, tem como temática central a questão de gênero e trata de coisas que dizem respeito ao bairro. Outro programa é “Façam correr a voz”, com transmissão ao vivo das atividades realizadas na vila.

Atualmente, La Colmena é responsável pela Casa del Niño, com 170 crianças de 6 a 12 anos; um grupo de 160 adolescentes, que compartilham cursos de reflexão, passeios e capacitações; uma orquestra juvenil, formada por 45 integrantes; um refeitório infantil, com mais de 720 comensais; um jardim maternal e infantil, com 340 meninos e meninas.

lacolmena-vacaciones

Colônia de férias e passeios com as crianças também estão entre as atividades da associação

Além de colônia de férias, oferece vários cursos. Para crianças e jovens, há oficinas de teatro, cinema, dança, música, informática e esportes, entre outros. A associação também oferece capacitação em micro-empreendimentos, formulação de projetos, desenvolvimento de horta orgânica, cursos sobre violência, maltrato infantil e abuso, prevenção de adição em drogas, capacitação, assessoramento, assistência e acompanhamento até os centros especializados.

Décadas de luta

“Nos anos 80, o desejo dos argentinos, pelo menos em sua maioria, era respirar o ar puro da democracia logo depois da sangrenta ditadura. A primeira década foi de reacomodação de metas deixadas de lado pelo golpe militar”, comenta Margarita Palacio. “Nos anos 90, surge o ‘vale tudo’, a destruição da indústria nacional se aprofunda, o pensamento e a ação dos argentinos adormecem.”

A partir deste marco histórico, a experiência de comunicação comunitária, educação popular e reconstrução de cultura identitária se fortaleceu, levando adiante o lema “Para voltar a acreditar e deixar mais forte a esperança”. Segundo Margarita, porque eles tinham que voltar a acreditar neles unidos, organizados como um coletivo local, lutando por suas necessidades e seus sonhos.

“Hoje, olhando a distância, podemos afirmar que o desenvolvimento de nossa proposta comunicacional, cultural e popular foi pelo desenvolvimento local. E dizemos que nossa rádio não é uma rádio que diz somente, mas que também faz, já que seus membros integram distintas organizações que trabalham incansavelmente a serviço das comunidades.”

Três perguntas para Margarita Palacio

1. Vocês cresceram bastante nestes anos. Quando começaram as atividades, imaginavam que seria assim?

O grupo fundador desta experiência, em sua maioria, vinha com saberes e vivências prévias, realizadas com muito compromisso. Além disso, alguns do grupo vínhamos nos capacitando e trocando experiências com muitos grupos da América Latina, já que estávamos cursando os anos 1983, 1984, 1985, até 1990, no Centro de Comunicação Educativa La Crujia. Estivemos em contato com experiências de comunicação e educação popular muito importantes na América Central e na América Latina. Desenvolvíamos planos e projetos com perspectivas a curto, médio e longo prazo, buscando recursos financeiros, formando e fortalecendo recursos humanos, com a criatividade de aplicá-los ao território urbano empobrecido.

margarita

Margarita é presidente da associação

2. Uma sala para gravação foi construída e equipada quando a associação se tornou Ponto de Cultura, em 2011. Algo mais mudou com o Ponto de Cultura?

A sala de gravação foi construída com recursos do Ponto de Cultura, assim como parte do equipamento. O equipamento restante foi obtido mediante outros recursos. E, sim, mudou muito, já que pudemos destinar um espaço exclusivamente à comunidade e não apenas aos integrantes da rádio. As equipes dos programas de rádio puderam gravar ali seus spots, editar suas entrevistas, a orquestra juvenil pôde gravar suas canções, jovens de outras localidades puderam gravar suas demos e ensaiar antes de uma apresentação. Talvez, em meio a tantas necessidades, inundações, desemprego etc, isso poderia parecer algo desnecessário. Mas assim como há um pão que provê alimento ao nosso corpo, também deve existir necessariamente este outro, o pão da alma, que dá valor à cultura, à comunicação, à educação popular.

3. A experiência tem valido a pena?

Sim, nos sentimos orgulhosos e orgulhosas do realizado. E sentimos que cada vez mais temos que seguir oferecendo possibilidades. Neste momento, estamos nos primeiros passos de uma linguagem audiovisual mais profissional. (O programa) Pontos de Cultura, em sua segunda etapa, nos proveu de uma boa câmera filmadora. E lá vamos com a mesma força, iniciando um novo olhar para estes tempos. Como neste caso somos “novos”, vamos com a humildade de quem inicia um novo recorrido. Colocamos em marcha o “Crescer a partir do pé”: de baixo, com os sólidos cimentos de nossa experiência anterior, com o desejo de nos capacitar nesta nova linguagem, com as novas estéticas do momento, tratando ou sonhando produzir novos conteúdos, próprios, que partam do coração de nossas comunidades.

Saiba mais:

http://www.fmreconquista.org.ar/
https://www.facebook.com/lacolme

Biblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todosBiblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todosBiblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todosBiblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todosBiblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todosBiblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todos

Por IberCultura Viva

Em23, Sep 2015 | Em | PorIberCultura Viva

Biblioteca Popular Sur: portas abertas e rodas para chegar a todos

Uma biblioteca com rodas passeia desde 2009 pela província de San Juan, na Argentina. Dentro dela há 10 computadores conectados à internet, livros para todas as idades, ludoteca, titereio, instrumentos musicais, materiais didáticos para cursos, tapetes, pequenas mesas e cadeiras. Assim, cheio de imaginação, o Bibliomóvel viaja pelo estado levando livros e magia, buscando formar novos leitores, querendo formar cidadãos.

O Bibliomóvel é um dos principais projetos da Biblioteca Popular Sur, criada em 2007 na cidade de Rawson. Localizada desde 2013 em um grande edifício entre as ruas Doctor Ortega e Mendoza, a biblioteca atualmente é um centro cultural onde se oferecem cursos de percussão, violino, guitarra, murga, salsa e bachata, folclore, teatro, balé, artesanato, tecido, porcelana, desenho, computação, xadrez e ginástica aeróbica.

bpsur-fachada

A Biblioteca Popular Sur atua como importante centro cultural da cidade de Rawson, na Argentina

De portas abertas para quem quiser chegar, a biblioteca conta com um salão de 320 metros utilizado para conferências, bate-papos, exposições, concursos, cinema, etc, e um primeiro piso, onde está todo o material bibliográfico e um espaço de formação com 25 computadores. O prédio está adaptado às necessidades inclusivas. No Espaço Integrador Braille, pessoas com deficiências assistem a alguns dos cursos, como os de música, artesanato, computação e folclore.

 

Primeiros livros

A Biblioteca Popular Sur nasceu em dezembro de 2007, na rua República do Líbano, como uma iniciativa de vizinhos, profissionais, funcionários e artistas que se organizaram para consolidar um programa integral de educação e cultura para a comunidade. Para eles, isso poderia dar resposta a uma problemática que percebiam em seu território em torno da falta de incentivo para a leitura e de apoio familiar para promover esta tarefa.

O resultado foi melhor do que esperavam. Dois anos depois do começo das atividades, o grupo já começava a colocar rodas no programa, ampliando com o Bibliomóvel o acesso de suas propostas a outras regiões da província.

bibliomovil-4

Bibliomóvel: a biblioteca com rodas que viaja pela província

Fazendo com que a biblioteca vá até o usuário, para que ele faça o caminho de volta até ela, o projeto tem possibilitado que crianças e jovens de todos os rincões de San Juan tenham acesso aos serviços, como fonte de informação e enriquecimento cultural, e que a comunidade os tenha também como uma ferramenta de participação e cidadania. No Bibliomóvel são realizados encontros de leitura, festejos, cursos e espaços de narração para todas as idades.

“O principal objetivo é poder aproximar as bibliotecas do usuário, mostrando que elas não são somente um depósito de livros, e sim um lugar culturalmente ativo a serviço da comunidade”, diz Andrea Narváez, coordenadora da Biblioteca Popular Sur.

A biblioteca andarilha começou a rodar em 2009. “Em 2011, com o aporte do programa Pontos de Cultura, pudemos fortalecer o projeto inicial com novos cursos e uma mudança completa interna (no ônibus), para que ficasse mais acessível a todos”, conta Andrea. Com o apoio do programa, o coletivo ganhou, entre outras coisas, rampas para o acesso de cadeiras de rodas.

 

Biblioinquieta

Outro projeto da Biblioteca Popular Sur que leva livros aonde estão os usuários é “Biblioinquieta, carrinhos andarilhos da imaginação”. Tendo em conta que a educação não se limite à educação escolar, e que aprendizagem e leitura estão intimamente ligados, o programa busca satisfazer as necessidades leitoras de alunos e docentes levando uma ampla variedade de livros a escolas da cidade de Rawson.

biblioinquieta3

Os “carrinhos andarilhos da imaginação” vão às escolas

Trasladados de um lugar a outro em carrinhos andarilhos, os livros têm diferentes formatos (papel, digital, audiolivros) e são cuidadosamente escolhidos para que respondam a interesses reais, a necessidades expressivas, emocionais e de informação da maior parte dos leitores.

Em cada escola é distribuído um carro “infobot”, com um computador leitor de livros digitais e audiolivros, mais três caixas com 35 livros cada. Uma por cada ciclo do nível primário. O carrinho ali permanece durante oito semanas, período em que os professores seguem um plano de trabalho de atividades sugeridas, dando às crianças tarefas relacionadas com aqueles livros.

Entre os “exercícios inquietos para uma imaginação andarilha” estão conversações sobre os livros e seu conteúdo, improvisações de obras de teatro baseadas nos textos, invenções de contos, adivinhanças, frases, desenhos livres, representações de contos com marionetes, títeres ou bonecos.

Nos ciclos letivos de 2012, 2013 e 2014, foram distribuídos 295 livros a 52 estabelecimentos educativos de nível primário e de educação especial do município de Rawson.

 

Três perguntas para Andrea Narváez

 

1.Quando a biblioteca surgiu, em 2007, vocês tinham a intenção de consolidar um programa integral de educação e cultura para a comunidade, acreditando que isso podia dar uma resposta a uma problemática que percebiam em seu território. Depois de oito anos, já podem ver essa resposta?

A instituição e a comunidade avançaram muito nesses oito anos, já que não apenas tivemos o resultado, mas a demanda foi se estendendo a outras necessidades básicas da comunidade, como as capacitações para poder buscar trabalho como operador de PC, auxiliar de bibliotecário, os cursos baseados nas novas tecnologias. Na verdade, foi muito mais do que esperávamos, já que demos muito atenção ao que o território necessitava e fomos tratando de cobrir todas as suas expectativas.

andrea-2

Andrea é a coordenadora da biblioteca

2.Como surgiu o programa Biblioinquieta?

Biblioinquieta surgiu da inquietude da comunidade a partir do programa Bibliomóvel Popular Sur, onde se vê nosso objetivo inicial, que é colocar rodas na biblioteca e na cultura. O cronograma do Bibliomóvel consta de uma visita de uma jornada por escola ou instituição, onde as mesmas propõem a necessidade de que se estenda por mais tempo a visita. Como o programa não possui meios próprios para a manutenção de atividades por vários dias, surgiu a ideia de deixar carrinhos com bibliografia para que se siga trabalhando a leitura com mais profundidade.

3.Além de promover a leitura, vocês têm o objetivo de promover a cultura popular em San Juan. Quando se deram conta de que a biblioteca poderia ser uma ferramenta para visibilizar, por exemplo, a cultura huarpe, própria dos povos originários da região?

Sim, exatamente, a biblioteca é um importante centro cultural. Nos demos conta de que não apenas tínhamos que fomentar a leitura, e sim que podíamos fortalecer as identidades próprias da nossa região como uma forma de aprender nossa base cultural indígena, de nosso antepassados, os huarpes. Outro objetivo foi trazer à tona todas as comunidades indígenas que há na região e nos colocarmos à disposição para que não percam a identidade própria de sua cultura ao se misturar com a sociedade atual.

 

Centro Cultural Flotante Siete Corrientes: um “grão de areia” sobre o Rio ParanáCentro Cultural Flotante Siete Corrientes: um “grão de areia” sobre o Rio Paraná

Por IberCultura Viva

Em23, Sep 2015 | Em | PorIberCultura Viva

Centro Cultural Flotante Siete Corrientes: um “grão de areia” sobre o Rio Paraná

Às margens do Rio Paraná, na cidade argentina de Corrientes, há um espaço único em seu tipo na América Latina: o Centro Cultural Flotante Siete Corrientes. No pontão localizado em um dos lugares mais bonitos da cidade, o médico Roberto Villalba acompanha há dez anos o ritmo das águas, dos barcos que chegam e partem, da vida que transcorre ao largo do curso do rio. É ali, no “flutuante” recuperado e transformado em centro cultural multidisciplinar, onde ele coloca desde 2005 seu “pequeníssimo grão de areia” em busca de um mundo melhor, oferecendo atividades diversas à comunidade.

Diretor fundador do Centro Cultural Siete Corrientes, Roberto Villalba nasceu em Concepción (Paraguai) e vive na Argentina desde os quatro anos (é naturalizado argentino). Além de cardiocirurgião, pesquisador e autor de trabalhos científicos e livros em sua especialidade, é artista plástico e escritor de ficção. Tem publicados livros de contos (entre eles, “El ojo de Alah”, “La última profecia”, “El pequeño gigante de los pies de barro”) e dois romances (“El cazador de bichejos”, ficção histórica sobre o descobridor dos micróbios, e “Mundos cruzados”).

Villalba elabora livros artesanais, livros objeto e réplicas de antigos códices maias e astecas. É diretor da Editorial Molino de la Costa, que resgata técnicas ancestrais como o batik de origem javanesa, utilizada em seus quadros. Foi um dos criadores do movimento muralístico em Corrientes, com o grupo Arte Ahora, e atualmente incursiona em manufatura de papel artesanal feito com fibras vegetais da região.

oficina-papel-flotante

O curso de papel artesanal é uma das atividades que o centro oferece à comunidade

Das viagens que fez pelo mundo — ele exerceu sua profissão de médico em países como França, Argélia, México, Paraguai e Burkina Faso –, trouxe máscaras rituais e ceremoniais (é colecionador) e uma certeza: de que não importam a macro ou a microeconomía se no há educação e cultura.

O Centro Cultural Siete Corrientes está instalado no coração da cidade. Seus habitantes participam de iniciativas de formação e tornam possível a circulação de conteúdos culturais próprios e da região. Ali são realizadas exposições temporárias de pintura, escultura, fotografia, artesanato e desenho. Também são organizadas conferências, cursos e seminários, sessões teatrais e ciclos de cinema. Seus integrantes dão aulas de teatro, cursos de cerâmica e manufatura de papel.

O “flutuante” tem dois andares. Na varanda está o “teatrinho”, onde há aulas e sessões de teatro e cinema, um ou outro curso, bate-papo ou conferência. Na parte coberta há uma pequena biblioteca, um café com quatro mesas, um salão multiuso de 8m x 18m, um espaço para curso de papel artesanal, banheiros, um pequeno depósito e um escritório para a direção.

O centro cultural é Ponto de Cultura desde 2011. “Ser Ponto de Cultura nos permitiu mais visibilidade e maior consideração no meio e nos fortaleceu como institução”, diz Villalba. “Apesar disso, salvo (o Ministério) de Cultura de la Nación, não nos facilitou a obtenção de apoios governamentais que nos ajudassem economicamente. Seguimos sendo um centro cultural completamente de autogestão. E está cada vez mais difícil obter recursos para a manutenção de tamanha estrutura.”

Três perguntas para Roberto Villalba

 

roberto-villalba-flotante1.De onde vem o sonho de levantar um espaço para a cultura sobre o rio Paraná?

Em princípio, estando fora do país e de Corrientes, eu pensava que em algum momento de minha vida tinha que me instalar sobre o rio Paraná ou às margens de alguma lagoa. Ambas as coisas se tornaram realidade. Primeiro consegui construir, em uma lagoa de Corrientes, um centro turístico de características únicas para sua época em nossa zona e ali desenvolvi múltiplos eventos também relacionados com a cultura.

2.A vida de um porto fluvial gira ao redor do intercâmbio. Podemos dizer que isso se reflete também no projeto? No intercâmbio e na circulação de conteúdos culturais, por exemplo?

Quando fechei o centro turístico – ainda que não acredite foi por excesso de êxito, porque nos fins de semana ingressavam mais de 3 mil pessoas –, me deu conta de que estava produzindo um dano ecológico e este não era o meu objetivo. Então comecei a buscar um barco, justamente para instalar um centro cultural que pudesse ser itinerante e poder, assim, fazer um intercâmbio de experiências e circulação de conteúdos em todos os povoados e cidades ao largo do nosso lindo Paraná. Este foi um sonho muito fora da realidade, porque com os requisitos que a prefeitura impõe para habilitar um barco, é totalmente impossível sustentá-lo economicamente.
Nesse momento, então, soube que estava abandonado e quase destruído o pontão onde hoje funcionamos e mudei a direção do meu projeto. Por sorte, o projeto foi declarado de interesse da cultura e do turismo e assim pude obtê-lo em comodato. O esforço foi grande porque não tive apoio econômico de nenhum tipo. Mas aqui estamos.

3. Como médico, você esteve na França, na Argélia, no México… O que viveu nesses lugares influenciou de alguma maneira sua experiência com o centro cultural flotante?

Todas as experiências, até as que vivi na selva de Burkina Faso, em condições de desenvolvimento superprimitivas, me fizeram refletir, comparando com o que passava também em nossos países “desenvolvidos”, que não importam a macro ou a microeconomía se não há educação e cultura. Esta é a única forma de evolução que teriam que encarar todos os países para que nossas sociedades e o mundo seja mais justo. Por isso este empreendimento, para aportar um pequeníssimo grano de arena.

Saiba mais:

www.facebook.com/pages/Centro-Cultural-Flotante-Siete-Corrientes